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quinta-feira, 17 de junho de 2021

Como surgiu a capoeira?

Luta foi criada no século 17 por escravos africanos 








A luta 100% brasileira, foi criada no século 17 por escravos africanos da etnia banto. Por causa da origem, ficou proibida oficialmente até 1937, embora nunca tenha deixado de ser praticada. Nos anos 30, o baiano Manuel dos Reis Machado, o mestre Bimba, tirou os capoeiristas do chão, quebrou o gingado e incorporou golpes de outras lutas. Sua criação, a Capoeira Regional, se diferencia até hoje da capoeira angola, mais tradicional e difundida a partir da década de 1910 pelo baiano Vicente Ferreira, o mestre Pastinha. No século 20, a capoeira virou esporte, com direito a confederação nacional. Existem até torneios em que capoeiristas encaram lutadores de outras especialidades. 

A capoeira é praticada por 6 milhões de brasileiros. No mundo, são 8 milhões de capoeiristas espalhados por mais de 180 países. 

Uniforme:

Na capoeira regional, a roupa é sempre branca, com calças largas e camisetas – capoeiristas descamisados é só para turista ver. Cordas coloridas, amarradas na cintura, indicam o nível do jogador – a Confederação Brasileira, já tentou padronizar uma escala que vai do verde ao branco, mas nem todo mundo concorda. 

Mestre Bimba: 

 Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mestre Bimba, foi o criador da capoeira regional, também chamada de luta regional baiana, no final da década de 1920.

A partir de seus conhecimentos sobre a capoeira primitiva – capoeira Angola – e sobre a luta denominada batuque, ele foi o primeiro capoeirista de sua época a desenvolver um sistema de ensino e, também, o primeiro a dar aulas em ambiente fechado. Conquistou reconhecimento e respeito da sociedade, numa época em que a perseguição a manifestações da cultura negra era intensa.

“O Bimba foi, talvez, uma das últimas figuras do ciclo heroico dos negros na Bahia. Era um negro enorme, muito forte, analfabeto. Com consciência, com uma erudição no que diz respeito a Bahia e com uma cultura sobre a gente negra inédita”, afirmou Muniz Sodré, ex-aluno e autor do livro Mestre Bimba: corpo de mandinga, em entrevista a Anselmo Gois, no programa De lá pra cá, da TV Brasil, em 2010.

A vida de Mestre Bimba e o início na capoeira Manoel dos Reis Machado nasceu no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, no dia 23 de novembro de 1900.

O apelido Bimba é fruto de uma aposta entre sua mãe e a parteira, sobre qual seria o sexo da criança. “Ganhei a aposta, o cabra tem bimba e cacho”, teria dito a parteira na hora do nascimento.

O início na capoeira se deu aos 12 anos de idade, no aprendizado do batuque, luta considerada como uma das matrizes da capoeira.

Seu primeiro mestre foi o africano Bentinho, capitão da Companhia de Navegação Baiana.

Aos 18 anos, começou a dar aulas e, aos 27 anos, já era conhecido como Mestre Bimba.

Além de capoeirista, foi carvoeiro, trapicheiro, carpinteiro e doqueiro (trabalhou em docas).

Mestre Bimba cria a capoeira regional

O sentimento de que a capoeira estava perdendo suas características de luta, com golpes estilizados feitos na intenção de empolgar os espectadores, é apontado como o principal motivo que levou Bimba a desenvolver uma variante da capoeira tradicional, denominada Angola. “Em 1928, eu criei, completa, a Regional, que é o batuque misturado com a Angola, com mais golpes, uma verdadeira luta, boa para o físico e para a mente”, disse Bimba, conforme relatado no livro A saga do mestre Bimba, de Raimundo Cesar Alves.

Ao longo dos anos, o baiano transformou a capoeira numa luta com método de ensino próprio, criando rituais como o batizado, a formatura e a especialização.
A capoeira era trabalhada em duas vertentes: como luta de defesa pessoal e como manifestação cultural e artística.

“Com a Capoeira Regional, Mestre Bimba suscitou uma nova abordagem expansionista e pedagógica da capoeira: subiu no ringue, realizou apresentações, montou academia, estabeleceu aulas regulares, lições, turmas de alunos com horários preestabelecidos e uma metodologia do ensino através das sequências e jogos diferenciados”, diz Hellio Campos (Mestre Xaréu), no livro Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba.

As variações musicais do berimbau ditam o ritmo, o tipo de jogo que será feito na roda. Na capoeira regional, isso acontece por meio de sete toques criados por Mestre Bimba. São eles: São Bento Grande, Santa Maria, Banguela, Amazonas, Cavalaria, Idalina e Iúna. Capoeira: de renegada a esporte nacional

Antes de Bimba, a capoeira era ilegal e discriminada como “coisa de malandro” e de escravo “fujão”. 

Na década de 1930, Getúlio Vargas, em busca de apoio popular, passou a permitir a prática, apenas em ambientes fechados e com alvará da polícia. Assim, em 1932, Mestre Bimba fundou sua primeira academia no bairro do Engenho Velho de Brotas. Essa foi, oficialmente, a primeira academia de capoeira a ter um alvará de funcionamento, datado de 1937, registrada com o nome de Centro de Cultura Física Regional.

Mestre Bimba desafiou lutadores e não se soube de alguma ocasião em que tenha sido derrotado.

Levou seu grupo a diversas cidades brasileiras, apresentando a capoeira baiana. Em 1949, por exemplo, realizou em São Paulo uma série de lutas, com atletas de outras modalidades.

Em 1953, fez uma apresentação para o então presidente Getúlio Vargas, que estava de passagem por Salvador. Na ocasião, Vargas afirmou que “a capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”.

Na apresentação, o grupo de Bimba era formado por duas alas. A da percussão, com dois pandeiros e um berimbau – instrumento símbolo da capoeira e da Bahia –; e a dos capoeiristas, que se revezavam de dois em dois, com movimentos e coreografias encenando os golpes.

A capoeira foi oficializada como prática esportiva pelo Conselho Nacional de Desportos apenas em 1972. Mestre Bimba: representante da cultura afro-brasileira

Mestre Bimba faleceu em 1974, vítima de derrame cerebral (Foto: Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba, EDUFBA, 2009)

Em 1973, Mestre Bimba deixou a Bahia rumo a Goiânia, por motivos financeiros e por ter considerado que os “poderes públicos” não o teriam dado o devido valor.

Um ano depois, em 5 de fevereiro de 1974, ele faleceu na capital goiana, vítima de um derrame cerebral, aos 73 anos.

Seus familiares dizem que ele morreu por tristeza, de “banzo” – doença da nostalgia e saudade que acometia os negros escravizados.

Mestre Bimba contribuiu para a difusão de manifestações culturais da Bahia, como o samba de roda e o maculelê.

Deixou como herança a profissionalização, a metodologia e o respeito da sociedade pela capoeira.

Por influência dele e de seus discípulos, a capoeira conquistou o Brasil e é praticada em diversos países do mundo.

Em 1996, em uma homenagem póstuma, Mestre Bimba recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia.

No mesmo ano, ganhou a maior honraria da Câmara Municipal de Salvador, a Medalha Thomé de Souza.

Fontes:

ALMEIDA, Raimundo Cesar Alves. A saga do mestre Bimba. Salvador, 1994.
BARBOSA, Fayson Rodrigo Merege. Mestre Bimba: o fundador e rei da capoeira regional. EFDeportes.com – Revista Digital – Buenos Aires, 2009.
CAMPOS, Hellio (Mestre Xaréu). Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba. Salvador: EDUFBA, 2009.
FILHO, Ubaldo Marques Porto. Bahia, Terra da Felicidade – Mestre Bimba.
FONSECA, Vivian Luiz. A Capoeira Contemporânea: Antigas Questões, Novos Desafios. CPDOC/ Fundação Getúlio Vargas – RJ.
http://www.capoeiramestrebimba.com.br/mestre_bimba.html

com 1,93 m de altura e 89 kg, Manuel dos Reis Machado (1899-1974) inventou e popularizou a capoeira regional com golpes como o dobrado. Bom de briga, incorporou elementos do jiu-jítsu, da luta livre, do Savater (de origem francesa) e até do batuque – técnica já extinta.

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HISTÓRIA GERAL:

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/bantos-quatrocentos-grupos-etnicos-falam-linguas-bantas-atualmente.htm

Bantos - Quatrocentos grupos étnicos falam línguas. bantas atualmente

Ao contrário do que muita gente acredita, os bantos não são um povo, nem sequer são uma etnia. Banto é um tronco linguístico, ou seja, é uma língua que deu origem a diversas outras línguas africanas. Hoje são mais de 400 grupos étnicos que falam línguas bantas, todos eles ao sul da linha do Equador.

KLEBER BARRETO Mestre Chuvisco & Prof. Railda Barreto👍 

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terça-feira, 11 de maio de 2021

 


VICENTE FERREIRA PASTINHA

“MESTRE PASTINHA O GUARDIÃO DA CAPOEIRA ANGOLA”
Vicente Ferreira Pastinha nasceu em cinco de abril de 1889. Fruto da união entre um espanhol, José Señor Pastinha e de uma baiana, Eugênia Maria de Carvalho, nasceu na Rua do Tijolo em Salvador, Bahia.
Seu pai era um comerciante, dono de um pequeno armazém no centro histórico de Salvador e sua mãe ,com a qual ele teve pouco contato ,era uma negra natural de Santo Amaro da Purificação e que vivia de vender acarajé e de lavar roupas. Viveu uma infância feliz, porém, modesta. Durante as manhãs freqüentava aulas no Liceu de Artes e Ofício, onde também aprendeu pintura. À tarde, empinava arraia e jogava capoeira. Com 13 anos era o mais respeitado e temido do bairro. Mais tarde, foi matriculado por seu pai na Escola de Aprendizes de Marinheiro (onde passou 8 anos) que não concordava muito com a prática da capoeira pois achava que era muita vadiagem, porém ainda na marinha já ensinava capoeira seus companheiros de farda, na Marinha
"Aos doze anos, em 1902, eu fui para a Escola de Aprendiz de Marinheiro. Lá ensinei Capoeira para os colegas. Todos me chamavam de 110. Saí da Marinha com 20 anos (...). Vida dura, difícil. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a Polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar eu lembrava de mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava Capoeira, então queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e de meu corpo(...). Naquele tempo, de 1910 a 1920, o jogo era livre.
'Passei a tomar conta de uma casa de jogo. Para manter a ordem. Mas, mesmo sendo capoeirista, eu não me descuidava de um facãozinho de doze polegadas e de dois cortes que sempre trazia comigo. Jogador profissional daquele tempo andava sempre armado. Assim, quem estava no meio deles sem nenhuma arma bancava o besta. Vi muita arruaça, algum sangue, mas não gosto de contar casos de briga minha. Bem, mas só trabalhava quando minha arte negava sustento. Além do jogo trabalhei de engraxate, vendia gazeta, fiz garimpo, ajudei a construir o porto de Salvador. Tudo passageiro, sempre quis viver de minha arte. Minha arte é ser pintor, artista (...)."
Quando completou 21 anos voltou para Salvador, decidido a se dedicar à pintura que era uma de suas profissões. Mestre Pastinha também foi jogador de futebol, chegando a treinar na equipe do Ypiranga, seu time de coração. Foi engraxate, vendeu jornais, praticou esgrima, ajudou a construir o Porto de Salvador, foi alfaiate, fez garimpo e também tomou conta de casa de jogos, ocupando o cargo de “leão de chácara”, onde seu dever era manter a ordem no recinto. Nos horários de folga (dias santos, feriados e domingos) praticava capoeira às escondidas, pois no início do século esta luta era crime prevista por Lei.
Segundo as palavras do próprio mestre que dizia ter aprendido a capoeira com a sorte...
"Quando eu tinha uns dez anos - eu era franzininho - um outro menino mais taludo do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua - ir na venda fazer compra, por exemplo - e a gente se pegava em briga.
Só sei que acabava apanhando dele, sempre”. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano de nome Benedito, que sempre assistia as lutas de pastinha disse: “Vem cá, meu filho. Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando raia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. Foi isso que o velho me disse e eu fui".
Além das técnicas, muito mais lhe foi ensinado por Benedito, o africano seu professor.
"Ele costumava dizer: não provoque, menino, vai botando devagarinho ele sabedor do que você sabe (…). Na última vez que o menino me atacou fiz ele sabedor com um só golpe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito."
E assim o mestre deu inicio a arte que mais tarde o tornaria o maior de todos representantes e defensor da Capoeira Angola, o que lhe rendeu o titulo de “Guardião da Capoeira Angola”e também “Filosofo da Capoeira”. Mestre Pastinha foi um dos maiores Mestres da Bahia, sendo hoje o principal referencial quando se fala de Capoeira Angola no Brasil e no mundo.
Mas no decorrer de sua vida o mestre também teve suas situações....reais, por assim dizer dentro e fora da roda da capoeira como certa vez em que teve uma contenda com o famoso Pedro Porreta e em outra ocasião já dentro da roda de capoeira um fato isolado e ate que acidental com um certo Velocidade, onde o mestre da uma aula de humildade e sabedoria que só um verdadeiro mestre poderia :
Mestre Pastinha e a contenda com Pedro Porreta:
Mestre Pastinha defrontou-se com o perigoso capoeirista Pedro Porreta, que marcou época na Bahia pela sua maneira agressiva de proceder e pelas inúmeras desordens que praticava, chegando a enfrentar o famoso chefe do Esquadrão da Cavalaria, Pedro Azevedo Gordilho, mais conhecido como "Pedrito". Eis a história da luta: "Tudo começou quando Pedro Porreta foi morar em um barraco perto da Rua das Laranjeiras, onde o Mestre Pastinha possuía uma quitanda. O Mestre Pastinha tinha ido à feira buscar bananas. Deixou sua mulher tomando conta da quitanda quando entrou Pedro Porreta, que não sabia que a mesma pertencia ao Mestre. Ao entrar, pediu meia dúzia de bananas. 'Não temos, o meu marido foi buscar ainda agora, na feira', respondeu-lhe a mulher do Mestre. Pedro Porreta já ia saindo quando avistou quatro bananas em cima do balcão. Virou-se e indagou: 'E estas quatro bananas que estão aí, para quem são?' 'São para os bichinhos!', disse a mulher do Mestre, apontando para uma gaiola com dois pássaros. Pedro Porreta avançou, pegou as bananas e saiu dizendo: 'Os bichinhos sou eu!' Ao voltar da feira, assim que entrou na quitanda e estava colocando o pesado cesto de bananas no chão, sua mulher foi lhe contando o sucedido. Ao terminar de ouvir o relato, o mestre saiu imediatamente à procura do desconhecido. Ao chegar à rua, encontrou um amigo seu, que a tudo assistira, revelando a identidade e o endereço do indivíduo. O Mestre agradeceu e dirigiu-se à casa de Pedro Porreta encontrando-o na porta. Pedro Porreta, não suspeitando de que ele fosse o dono da quitanda, cumprimentou-o amistosamente: 'Como vai Mestre? O que deseja?' Ao saber que ele era proprietário da quitanda e vinha disposto a obter uma explicação pelo que acontecera, abriu a porta, soltou uma gargalhada e apontou para as bananas que estavam dentro de uma panela cozinhando. Pastinha, notando a expressão zombeteira de Pedro Porreta, virou-se para ele e disse: 'Pedro, eu vou levar as bananas assim mesmo, só por causa do seu desaforo de invadir minha quitanda sem a minha presença e zombar da minha mulher.' Ao ouvir isto, Pedro Porreta dirigiu-se ao meio da rua e desafiou-o para lutar. Mestre Pastinha aceitou o desafio e a briga prolongou-se por vários minutos, sem que ninguém tivesse a coragem de apartá-los, só terminando com uma violenta cabeçada do Mestre Pastinha, atirando-o longe, estendido junto ao passeio. Neste momento, aproximou-se um senhor que morava nas proximidades e, depois de inteirar-se do motivo da briga, prontificou-se a pagar a despesa, contanto que encerrassem aquele assunto. O Mestre Pastinha não aceitou o dinheiro do tal senhor, dizendo-lhe: 'Meu amigo, eu agradeço a sua gentileza, mas o que motivou a minha briga com o Pedro não foi o dinheiro da despesa com as quatro bananas, e sim, a maneira como ele procedeu.' Dizendo isto, retirou-se para a sua quitanda e Pedro Porreta mudou-se de seu barraco, no dia seguinte.
" Mestre Pastinha e Velocidade:"
Certo dia, no ano de 1935, estando o Mestre Pastinha a jogar Capoeira na Rua do Bigode, onde funcionou a sua segunda Escola de Capoeira, com um capoeirista conhecido por Velocidade, tal era a sua rapidez nos movimentos da Capoeira, recebeu um golpe tão violento no rosto que o fez dormir em pé durante alguns segundos. Quando recuperou os sentidos, pensou que se tratasse de uma pedrada partida da assistência. Estava ainda a olhar para os lados para ver se localizava o causador da pancada, quando Velocidade se aproximou-se e disse-lhe: 'Desculpe Pastinha!' Só aí ele percebeu que não fora pedrada e, sim, um golpe desferido pelo seu camarada. Virou-se então para ele e falou: 'Menino, eu brincando sem maldade e você me aplica um golpe com toda esta violência.' Acabando de dizer estas palavras, tornou a dormir por mais alguns segundos. Quando se recuperou totalmente, dirigiu-se à bateria e ordenou que continuassem o jogo interrompido. Prosseguiu então o jogo com o entusiasmo dos assistentes que esperavam e desejavam que o Mestre aplicasse uma surra no seu desleal camarada que numa brincadeira entre amigos fizera aquela desfeita com o Mestre e o público ali presente. A certa altura do jogo, o Mestre, com um floreio, deixou seu adversário à sua mercê, com o pé parado junto ao seu rosto, mostrando a todos os presentes e ao próprio Velocidade a sua superioridade. Ainda assim, os assistentes se revoltaram com o Mestre Pastinha por ele não ter chutado o rosto do seu camarada. Depois de terminada a 'brincadeira' Mestre Pastinha calmamente dirigiu a palavra aos presentes: 'Se eu fizesse o que desejavam vocês agora seriam os primeiros a me condenar, alegando a minha condição de Mestre.' Todos concordaram com o que foi dito e o Mestre Pastinha ficou ainda mais admirado e respeitado no local."
A respeito de seu camarada “desleal”,não mais apareceu nas rodas de capoeira e ninguém dava noticia de sua pessoa.
Muitos anos depois,quando Mestre Pastinha encontrava-se lecionando em sua escola de Capoeira, Velocidade apareceu de surpresa e, após cumprimentar o mestre sentou-se para tocar berimbau.Mestre Pastinha ordenou que parassem a bateria e apresentou-o aos discípulos “Meninos!, Este ai é o famoso Velocidade, de quem sempre falo, o único capoeirista que conseguiu me acertar.” Velocidade levantou-se, abraçou o mestre e repetiu a s mesmas palavras de anos atrás: “Desculpe Pastinha!” Dizendo isto retirou-se da escola, desaparecendo novamente para nunca mais voltar.
Outro que diziam ser desafeto de mestre Pastinha , era mestre Caiçara, segundo dizem, Mestres Pastinha e Caiçara não se davam bem, porque mestre Caiçara teria sido cortado da comitiva que fez a viajem a Africa, ele teria ate comprado o terno....e ele mestre Caiçara atribuia este corte a Mestre pastinha, tanto que Mestre Caiçara quando via mestre Pastinha passar gritava "la vai o Valentão " e Pastinha usando a sabedoria e frieza de um verdadeiro Mestre nada o respondia!!
Em 1941 (já afastado a quase 20 anos da capoeira) Mestre Pastinha é convidado pelo seu antigo aluno Aberrê a assisti-lo numa roda no bairro da Gengibirra, onde segundo o mestre, era um ponto de encontro dos maiores mestres de capoeira da Bahia. “Lá só havia mestre, não tinha alunos” – dizia Pastinha. Aberrê disse que perguntaram quem tinha sido seu mestre e ele dizendo o nome de Pastinha mandaram chamá-lo ao qual Aberrê imediatamente o fez. Ao chegar à roda, Pastinha foi apresentado para um mestre conhecido como “Amorzinho”, um guarda civil que tomava conta da roda e imediatamente entregou o berimbau e a responsabilidade para o mestre.
"Na roda só tinha mestre. O mais mestre dos mestres era Amorzinho, um guarda civil. No apertar da mão me ofereceu tomar conta de uma academia. Eu dei uma negativa, mas os mestres todos insistiram. Confirmavam que eu era o melhor para dirigir a Academia e conservar pelo tempo a Capoeira de Angola.”
-Tem jeito não, Pastinha... É você mesmo que vai tomar conta disso aqui...
As palavras de Totonho de Maré soaram como um decreto. Reforçaram o insistente convite de mestre Amorzinho, dono da capoeiragem, o qual cumprimentou Pastinha com forte aperto de mão, seguido da surpreendente proposta.
- Há muito que eu esperava para lhe entregar essa capoeira para o senhor mestrar...
Eram mestres da antiga Gengibirra, ponto de encontro dos maiores capoeiristas de Salvador nas primeiras décadas do século passado. Amorzinho, Maré, Noronha, Aberrê, Livino e tantos outros reconheceram à sua frente um homem de avançada sabedoria, capaz de conduzir os destinos da capoeira angola, tirando-a da marginalidade. “Eles viram em Pastinha um sujeito de visão”, eram os primeiros passos da primeira academia.
Estavam lançadas as sementes do que seria a primeira Escola de Capoeira Angola. Foi fundado então em 23 de fevereiro de 1941 o CECA, Centro Esportivo de Capoeira Angola, nome dado pelo próprio mestre, localizado no Largo do Cruzeiro de São Francisco. Após a morte de Amorzinho, em 1943, o centro foi abandonado por todos os mestres, mas mesmo assim Pastinha continuou.
Em fevereiro de 1944 há uma reorganização e em 23 de março do mesmo ano vão para o Centro Operário da Bahia.
Em 1949, num domingo Pastinha foi convidado por dois camaradas para ver um terreno na fábrica de sabonetes Sicool no Bigode, onde recebeu o apoio e auxilio dos moradores. O centro ali se instalou e foram feitas as primeiras camisas em preto e amarelo, cores inspiradas no Clube Atlético Ypiranga. Uma das curiosidades dessa época é que Mestre Pastinha, avaliando cada um dos seus alunos, fazia um desenho na camisa, conforme os seus movimentos mais característico
Em 1° de outubro de 1952 o CECA foi oficializado. Como vemos no artigo original abaixo:
“O Centro Esportivo de Capoeira Angola, fundado a 1° de Outubro de 1952, com sede na cidade de Salvador, Estado da Bahia, é constituído de número limitado de sócios, tem a finalidade de ensinar, difundir e desenvolver teórica e praticamente a capoeira de estilo genuinamente “Angola”, que nos foi legada pelos primitivos africanos aportados aqui na Bahia de Todos os Santos.”
Em maio de 1955, o CECA muda de endereço e vai para o Largo do Pelourinho n° 19, onde permaneceu por 16 anos. Durante esse tempo Mestre Pastinha ficou muito conhecido chegando a ser entrevistado por jornais e revistas importantes da época. Sua academia recebia visitas ilustres como, Jorge Amado, o ilustrador Carybé, o filósofo Jean Paulo Sartre, o ator Jean Paul Belmondo, além de turistas de todo o Brasil.
Em cinco de julho de 1957, Mestre Pastinha apresenta a capoeira angola com seus alunos no festival Bahiarte, na Lagoa do Abaeté onde ocorre o seu primeiro encontro com Mestre Bimba. Os dois demonstraram passividade e respeito um pelo outro, deixando transparecer que a rivalidade entre os angoleiros e regionais, era criada pelos alunos e não pelos Mestres. O CECA ainda foi apresentado em vários outros estados, como, Pernambuco, Minas-Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.
Em 1964 o Mestre publica o seu livro intitulado “Capoeira Angola”, onde o escritor Jorge Amado teve o descreve da seguinte forma:
“... mestre da Capoeira de Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda a sua picardia, é um dos seus ilustres, um dos seus abas, de seus chefes. É o primeiro em sua arte. Senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola no pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor...”
Além do livro, o mestre gravou também um disco com cinco faixas. O disco intitulado “Pastinha Eternamente”, conta com depoimentos na voz do próprio mestre e músicas de capoeira, cantadas por Mestre Traíra
Em abril de 1966, integrou a delegação brasileira no 1° Festival de Artes Negras, no Senegal, Dakar na África, onde recebe várias homenagens e confirma que na África não existe qualquer coisa que se pareça com a nossa capoeira. Com todo esse destaque Mestre Pastinha começa a receber o apoio de várias instituições governamentais até que em 1971 o destino lhe pregaria uma grande peça.
Em 1971 já no alto de seus oitenta e dois anos de idade, Pastinha já quase cego devido a catarata, é obrigado pela prefeitura a se retirar do casarão, que entraria em reformas, com a promessa de que assim que estivesse pronto poderia voltar. O que nunca aconteceu
Mestre Pastinha teve então que se mudar. Foi morar na Rua Alfredo Brito n° 14 no Pelourinho, em um quarto escuro, úmido e sem janelas. Único lugar que dava para pagar com o mísero salário que recebia da prefeitura, já que não podia contar mais com o dinheiro das aulas. Ainda na mudança, foram perdidos muitos móveis, quadros que o mestre pintava e fotografias.
Posteriormente o prédio foi doado para o Patrimônio Histórico da Fundação do Pelourinho que em seguida o vendeu para o SENAC que transformou o prédio em um restaurante.
O Mestre Pastinha foi usado, enganado e abandonado (típico de nosso sistema).
Após a mudança e a perda de sua academia, Pastinha entra em profunda depressão e em 1979 com 90 anos é vítima de um derrame cerebral, que o levou a ficar internado por um ano em um hospital público. Após esse período foi enviado para o abrigo para idosos Dom Pedro II, onde permaneceu até a sua morte. Mestre Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado.
No dia 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, o Brasil perdia um dos seus maiores mestres. Não só o mestre da capoeira angola, mas o mestre da filosofia popular. O menino fraco e magrinho que conquistou o respeito e admiração do mais forte.
Mestre Pastinha foi um dos maiores ícones da cultura do Brasil. Dedicou sua vida inteira em favor da nossa cultura, ajudou a tirar a capoeira da ilegalidade e a colocá-la no seu devido lugar como prática esportiva e cultural, preservou e divulgou a nossa arte até fora do país, ensinou jovens e adultos a enxergar a vida de uma forma simples, mas nobre. Mestre Pastinha foi uma estrela que veio para a terra em forma de homem, para nos ensinar a filosofia da simplicidade, mas teve que voltar ao céu, pois o seu brilho já não cabia mais aqui em um lugar tão pequeno. Um homem que transformou e formou crianças em grandes adultos e fez os mais velhos brincarem como crianças, literalmente de pernas pro ar.
Mestre João Pequeno (in memorian), reabri o CECA um ano depois da morte de Pastinha, no Forte de Santo Antônio do Carmo e Mestre João Grande, que reside em Nova York desde 1990, onde ensina capoeira para pessoas do mundo todo.
O Mestre Pastinha era considerado por muitos um grande pensador e ate mesmo um grande filosofo da capoeira como um todo, era muito estimado por Jorge Amado, Caetano, Carybé, Pierre Verger entre outros famosos. Sobre mestre Pastinha Jorge Amado disse em uma de suas obras o seguinte:
“Privei com alguns dos mestres, dos verdadeiros, do universo da ciência, das letras, das artes. Picasso, Sartre, Joliot, meu privilégio foi tê-los conhecido. Não menor o apanágio de ter merecido a amizade dos criadores da cultura popular da Bahia(...), de acompanhar Pastinha até a última roda de capoeira angola”. Depois, em Bahia Boa Terra Bahia, parceria com Flávio Dan, volta a aclamá-lo, dessa vez em prosa quase lírica:
“De repente um salto, uma volta sobre si mesmo, o pé solto no ar, o corpo leve, um passo de balé, cadê o adversário? Quem teve a aventura de ver mestre Pastinha na roda da capoeira, quem assistiu ao maravilhoso espetáculo de sua luta, quem o viu diante dos berimbaus a comandar seus alunos, teve o privilégio de conhecer o capoeirista perfeito, o primeiro, sem segundo”.
Frases de Mestre Pastinha
“Eu me chamo Vicente Ferreira Pastinha. Eu nasci pra capoeira, só deixo a capoeira quando eu morrer. Eu amo o jogo da capoeira. E não há outra coisa melhor na minha vida do que a capoeira.”
“Eu sou um dos exemplos do passado. Aqui tem muitos veteranos, velhos mesmo, capoeirista veterano, mais idoso do que eu. Menino das meninas dos meus olhos... Capoeirista.”
"Ninguém pode mostrar tudo o que tem às entregas e revelações. Têm que ser feito aos poucos. Isso serve na capoeira, na família e na vida. Há momentos em que não podem ser divididos com ninguém e nestes momentos existem segredos que não podem ser contados à todas as pessoas".
“Capoeira é muito mais do que uma luta, capoeira é ritmo, é música, é malandragem, é poesia, é um jogo, é religião. (...) A capoeira é tudo que a boca come”.
“Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meus avós é a lei da lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não deixei mudar aqui na Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são os meus.”
“O que eu gosto de lembrar sempre é que a capoeira apareceu no Brasil como luta contra a escravidão. Nas músicas que ficaram até hoje se percebe isso. Entenda quem quiser, está tudo ai nesses versos o que a gente guardou daqueles tempos.”
“Mas o que serve para a defesa também serve para o ataque. A Capoeira é tão agressiva quanto perigosa. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar, eu me lembrava do Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira e queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo.”
“Quem não sabe lutar é sempre apanhado desprevenido. Agora que o ritmo está mais apressado, sinto a agilidade desses dois homens e imagino raiva, medo, despeito, desespero empurrando esses pés... uma vez vi um capoeirista afugentar uma patrulha inteira.”
“Não se pode esquecer do berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som. Dá vibração e ginga ao corpo da gente. o Conjunto de percussão com o berimbau não é arranjo moderno, não, é coisa dos princípios. Bom capoeirista, além de jogar, deve saber tocar berimbau e cantar.”
“Meus meninos são diplomados. Saem daqui da Academia sabendo tudo. Sabendo que a luta é muito maliciosa e cheia de manhas, que a gente tem de ter calma. Que não é uma luta atacante, ela espera.
Capoeirista nunca dizia a ninguém que lutava. Era homem astuto e ardiloso, como a própria luta, que se disfarçou com a dança para sobreviver depois que chegou de Angola. Capoeirista é mesmo muito disfarçado. Contra a força só isso mesmo. Está certo.”
“O Capoeirista é um curioso, tem mentalidade para muita coisa, sabendo aproveitar de tudo o que o ambiente lhe pode proporcionar. E a Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa. O negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada um.”
“Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um.”
“E jogar precisa ser jogado sem sujar a roupa, sem tocar o corpo no chão. Quando eu jogo, até pensam que o velho está bêbado, porque fico todo mole desengonçado, parecendo que vou cair. Mas ninguém ainda me botou no chão, nem vai botar.”
“Os negros usavam a capoeira para defender a sua liberdade. No entanto, malandros e gente infeliz descobriram nesses golpes um jeito de assaltar os outros, vingar-se de inimigos e enfrentar a polícia. Foi um tempo triste da capoeira.”
“Eu conheci, eu vi. Nas bandas das docas... luta violenta, ninguém a pôde conter. Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da Capoeira, mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica? E a faca? E os canhões? E as bombas? A capoeira angola parece uma dança, mas não é não. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está contida sua violência.”
"Capoeirista não é aquele que sabe movimentar o corpo, e sim aquele que se deixa movimentar pela alma".
“Tudo o que penso da capoeira está naquele quadro que está na porta da academia. Em cima só estar três palavras:”
“Angola, capoeira, mãe. E embaixo, o pensamento: ‘Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.
Abaixo uma reportagem do jornal "A TARDE" sobre o Mestre Pastinha em 05 de Maio de 1979 (02 anos antes do seu falecimento).
Mestre Pastinha tenta reviver, na miséria, o seu passado de glórias
A Academia de Capoeira de Vicente Ferreira Pastinha ou Pastinha, um dos capoeiristas mais conhecidos do país, está reaberta desde Fevereiro. Pouca gente sabe, no entanto, tomou conhecimento do fato, pois até o momento não foi divulgado que no número 51 da Rua Gregório de Matos, no Pelourinho, antigos alunos da capoeirista se reúnem ás terças, quintas e domingos, a partir das 17 horas, para cantar e jogar capoeira.
Junto com Mestre Pastinha, nos seus 90 anos, cantam e jogam capoeira a sua mulher Maria Romélia, João Grande,João Pequeno, Ângelo Romero, Valdino e Papa Amarelo, os alunos mais velhos do mestre. "Mas a academia ainda não tem alunos, porque todo mundo que aparece só quer ter aula de graça, promessas tem muitas". Se queixa Maria Amélia.
ABANDONADO
Mestre Pastinha está muito doente, passa os dias deitado em um banco no corredor do prédio nº 14, no Pelourinho, onde ocupa dois pequenos cômodos, sujos e escuros. Pouco fala quando está acordado e sua mulher é quem faz todas as queixas. A academia, que funcionava anteriormente no prédio onde está instalado o SENAC, no Pelourinho, foi fechada quando se iniciaram as obras de recuperação do conjunto arquitetônico. Segundo Maria Romélia, todo o material da academia desapareceu e não adiantou ir á Fundação do Patrimônio do Pelourinho para saber do paradeiro. Daquela época até os dias de hoje, o abandono e a exploração acompanharam o Mestre Pastinha, como fica claro nas palavras de sua mulher:
- A gente só recebe promessas, de muitos amigos, escritores, jornalistas que vêm aqui, mas dinheiro que é bom a gente não consegue nenhum", Maria Romélia diz estar cansada de tanto ver a exploração do Mestre Pastinha. Segundo ela, muitos livros foram escritos, reportagens feitas, filmes e apesar disso não renderam nenhuma compensação financeira para eles. Ela chega a fazer um apelo:
- Não façam shows dizendo que a renda é em benefício dele porque a gente não vê este dinheiro. Eu peço também que não usem mais o nome de Pastinha em músicas e apresentações, porque depois ele não tem direito a nada.
FAMOSO E POBRE
Na verdade, a fama conseguida através dos anos nada trouxe de bom para os dias finais do Mestre Pastinha. "Vêm fotógrafos aqui, tiram fotos dele e vendem por 700 cruzeiros", diz Maria Romélia. Enquanto isso, o casal sobrevive com uma subvenção conseguida no primeiro governo de Antônio Carlos Magalhães e do dinheiro que Maria Romélia consegue com a venda de acarajés, quando pode, na porta do Hotel Pelourinho.
A doença do Mestre Pastinha é a velhice, está cego e não joga mais capoeira, por causa disto. Quando tem dinheiro, segundo Maria Romélia, ela chama um médico e compra remédios, quando não tem ela pede e consegue alguma coisa. Mas acha que ninguém tem obrigação de dar nada de graça, assim como o Mestre Pastinha, não tem obrigação, também, de ensinar de graça.
Há algum tempo a Philips gravou um disco de capoeira, com o Mestre Pastinha. Agora Maria Romélia está tentando conseguir dinheiro para uma passagem de ida e volta ao Rio de Janeiro, onde tentará regravar o disco. "Ou se pelo menos, um banco desses financiasse a regravação ou lançamento de um livro seria bom."
Livro este que poderia contar a vida deste ex-funcionário civil da Marinha, ex-pintor de paredes, ex-bicheiro, ex-desordeiro, ex-vendedor ambulante, e ex-leão-de-chácara de casa de jogo, de quem, há muito tempo já se previu um destino triste: "Vai morrer pobre, doente, mas famoso".
Enquanto durou sua primeira academia, o Centro Esportivo de Angola, o Mestre Pastinha formou mais de 10 mil alunos e desde o seu fechamento acalentou o sonho da reabertura da Escola de Capoeira. Nascido na Bahia, em Salvador, Mestre Pastinha começou seu destino de mestre aprendendo a lutar no canzua do Mestre Benedito, na Rua das Laranjeiras. Estava começando a cumprir a predestinação de sua vida, que, segundo ele mesmo, era a de lutar capoeira.
O Mestre Pastinha faleceu em 13 de Novembro de 1981, pobre, doente e famoso.
É meus amigos, como pudemos observar a história de Mestre Pastinha, assim como de muitos outros Mestres vai da gloria ao fundo do poço e como o artigo acima mesmo diz “Famoso, Pobre e Doente” assim foi o fim de sua vida. Muito ainda podemos falar do venerado Mestre, mas é fato que ele (Pastinha) lutou para manter uma capoeira tradicional. a intelectualidade baiana teve um importante papel na defesa da capoeira de raiz, como demonstra o firme posicionamento de Jorge Amado em suas observações. Além de antigos mestres Samuel Querido de Deus, Traíra e Najé, Jorge Amado faz um profundo elogio de Mestre Vicente Ferreira Pastinha (1889-1981):
"Mestre Pastinha tem mais de setenta anos. É um mulato pequeno, de assombrosa agilidade, de resistência incomum. Quando ele começa a 'brincar', a impressão dos assistentes é que aquele pobre velho, carapinha branca, cairá em dois minutos, derrubado pelo jovem adversário ou bem pela falta de fôlego. Mas, ah! Ledo e cego engano!, nada disso se passa. Os adversários sucedem-se, um jovem, outro jovem, mais outro jovem, discípulos ou colegas de Pastinha, e ele os vence a todos e jamais se cansa, jamais perde o fôlego, nem mesmo quando dança o 'samba de Angola'. (...)
Quem fôr à Bahia não deve perder o extraordinário espetáculo que é
mestre Pastinha no meio do salão jogando a capoeira, ao som do
berimbau. E quando ele (sic) não está lutando, não vai descansar.
Toma de um berimbau, puxa as cantigas. Para mim, Pastinha é uma
das grandes figuras da vida popular da Bahia. É indispensável
conhecê-lo, conversar com ele, ouvi-lo contar suas histórias, mas,
sobretudo, vê-lo na 'brincadeira', atingindo adversários". (AMADO,
1945: 211)
Apesar de Mestre Bimba ter sido o primeiro a fundar oficialmente uma academia de capoeira (1937), Mestre Pastinha foi o primeiro a fundar uma escola de capoeira (Centro Esportivo de Capoeira Angola,1941), a pensar na capoeira como um instrumento pedagógico, de alto teor filosófico, e é isso que transparece em seus manuscritos. Sua escolha pela comunidade da capoeira tradicional, que resistia à proliferação da capoeira moderna, da moda, a luta regional baiana, não foi apenas pelo seu conhecimento técnico e domínio corporal. Como Mestre Pastinha conta, ele estava afastado há quase 20 anos da prática sistemática e cotidiana da capoeiragem. A sua escolha para "mestrar" a capoeira tradicional baiana, que passou então a ser chamada de capoeira angola, foi pelo seu grau de mestria, pelo seu alto conhecimento espiritual e filosófico, pelo seu caráter de educador. E é assim que ele mesmo se define: "É o educador da capoeira tipo Angola originado pelos negros da velha África".
(PASTINHA)
O que lhe trouxe também muitos desafetos, ainda assim o mestre se manteve firme em seu propósito de manter uma Capoeira Angola de Raiz ate o fim de seus dias, mas falarmos dos “desafetos e polemicas” , bem como os desafios do mestre ....fica para uma próxima ocasião....Mas não podemos esquecer também que muitos daqueles que o criticaram depois passaram a agir da mesma forma, procurando mostrar algum intelecto com o objetivo de lucrar de alguma forma, o que perdura ate os dias de hoje , a semente plantada pelo Mestre Pastinha, seja na angola ou regional hoje o capoeira cada vez mais busca formação acadêmica, o que ao meu ver é extremamente necessário para o bom desenvolvimento de nossa arte luta cultural a Capoeira.

MESTRE CHUVISCO & PROF.RAILDA BARRETO

quinta-feira, 4 de março de 2021

História do Karate-Do Shotokan

 

                                                             FuGichin nakoshi

Gichin Funakoshi nasceu em Shuri, Okinawa, em 1868, o mesmo ano da Restauração Meiji. Funakoshi era filho único, e logo após o seu nascimento fora levado para a casa dos seus avós maternos, com quem foi educado e aprendeu poesias clássicas chinesas. Aos 11 anos de idade iniciou seus estudos, com o mestre Asato, no duro sistema Naha-Te, e com o mestre Itosu no sistema Shuri-Te (velocidade e elasticidade). Foi perto do fim do ano de 1921, mestre Funakoshi, numa exposição de educação física promovida pelo governo Japonês em Tokyo, foi escolhido como representante da ilha, para fazer oficialmente a primeira demonstração pública do Okinawa-te à capital japonesa. Mestre Funakoshi reestruturou e codificou as técnicas de luta passando a chamá-las de Karate Do. Funakoshi sempre enfatizava o desenvolvimento do caráter e autodisciplina nas suas narrações. “Assim como um vale vazio pode ecoar o som da voz, do mesmo modo a pessoa que segue o Caminho do Karate Do deve esvaziar-se livrando-se de todo egoísmo e ambição. Tornar-se vazio interiormente, mas reto por fora. Este é o significado verdadeiro de vazio no Karate Do.” O Mestre Gichin Funakoshi além de Mestre de Karate era também, exímio poeta e quando escrevia os seus poemas usava o pseudônimo de SHOTO , que significa ondas de pinheiro. Ele usava este nome porque a cidade nativa de Shuri, local do seu nascimento, era rodeada por colinas com florestas de pinheiros RYUKYU e vegetação subtropical; entre elas estava o Monte Torao. A palavra torao significa: cauda de tigre; e era particularmente adequada porque a montanha era estreita e tão densamente arborizada que realmente tinha a aparência de uma cauda de tigre quando vista de longe. Por volta de 1933, Funakoshi desenvolveu exercícios básicos para prática das técnicas em duplas. Tanto o ataque de cinco passos (Gohon Kumite) como o de um (Ippon Kumite) foram usados. Em 1934, um método de praticar esses ataques e defesas com colegas de um modo levemente mais irrestrito, semi-livre (Ju Ippon Kumite), foi adicionado ao treinamento. Em 1935, foi publicado seu livro: “Karate Do Kyohan”. Este livro trata basicamente dos Kata.

Funakoshi era Taoísta, e ele ensinava Clássicos Chineses, como o Tao Te Ching de Lao Tzu, enquanto ele estava vivendo em Okinawa. Funakoshi era profundamente religioso. Ele tinha muito medo de que o Karate se tornasse um instrumento de destruição, e provavelmente queria eliminar do treinamento algumas aplicações mortais dos Kata. Então, ele parou de fazer essas aplicações. Ele também começou a desenvolver estilos de luta que fossem menos perigosos. Funakoshi teve sucesso ao remover do Karate técnicas de quebras de juntas, de ossos, dedos nos olhos, chaves de cotovelo, esmagamento de testículos, criando um novo mundo de desafios e luta em equipe onde somente umas poucas técnicas seriam legais. Ele fez isso baseado nos seus propósitos e com total conhecimento dos resultados.

Em 1936, Funakoshi mudou os caracteres Kanji utilizados para escrever a palavra Karate. O caractere “Kara” significava “China”, e o caractere “Te” significava “Mão”. Para popularizar mais a arte no Japão, ele mudou o caractere “Kara” por outro, que significa “Vazio”. De “Mãos Chinesas” o Karate passou a significar “Mãos Vazias”, e como os dois caracteres são lidos exatamente do mesmo jeito, então a pronúncia da palavra continuou a mesma. Além disso, Funakoshi defendia que o termo “Mãos Vazias” seria o mais apropriado, pois representa não só o fato de o Karate ser um método de defesa sem armas, mas também representa o espírito do Karate, que é esvaziar o corpo de todos os desejos e vaidades terrenos. No mesmo ano (1936), foi fundado o primeiro DOJO Oficial de Karate, pelo Comitê Nacional e devido aos feitos do mestre Funakoshi, foi batizado com o nome de SHOTO-KAN. Daí surgiu o nome de uma escola (estilo) que até hoje é cultivada em várias partes do mundo. SHOTO (pseudônimo de Funakoshi) + KAN (escola, classe…) = Escola de Funakoshi.

Funakoshi tinha 71 anos em 1939, e foi quando ele deu o primeiro passo dentro de um Dojo de Karate em 29 de Janeiro. O prédio foi feito de doações particulares, e uma placa foi pendurada sobre a entrada e dizia: “Shotokan”. “Sho” significa pinheiro. “To” significa ondas ou o som que as árvores fazem quando o vento bate nelas. “Kan” significa edificação ou salão. “Shoto” era o pseudônimo que Funakoshi usava para assinar suas caligrafias quando jovem, pois quando ele ia escrevê-las se recolhia em um lugar mais afastado, onde pudesse buscar inspiração, ouvindo apenas o barulho do pinheiros ondulando ao vento. Esse nome dado ao Shotokan Karate Dojo foi uma homenagem de seus alunos.

A necessidade de um treinamento nas artes militares estava em crescimento. Jovens estavam se amontoando no Dojo, vindos de todas as partes do Japão. O Karate foi de carona nessa onda de militarismo e estava desfrutando de uma aceitação acelerada como resultado. Em 7 de Dezembro de 1941, em uma tentativa de prevenir que as embarcações americanas bloqueassem a importação japonesa de matéria-prima, os japoneses tentaram remover a frota americana e varrer a influência Ocidental do próprio Oceano Pacífico. O plano era bombardear os navios de guerra e os porta-aviões que estavam no território do Hawai, Pearl Harbor. Isto deixaria a força da América no Pacífico tão fraca que a nação iria pedir a paz para prevenir a invasão do Hawaii e do Alasca. Os EUA contra atacaram com investidas aéreas. Uma das vítimas dos ataques aéreos foi o Shotokan Karate Dojo que havia sido construído em 1939. Com a América exercendo pressão em Okinawa, a esposa de Funakoshi finalmente iria deixar a ilha e juntar-se a ele em Kyushu no Sul do Japão. Eles ficaram lá até 1947. Os americanos destruíram tudo que estava em seu caminho. As ilhas foram bombardeadas do ar, todas as cidades queimadas até o fim, as colinas crivadas de balas pelos cruzadores de guerra de longe da costa, e então as tropas varreram através da ilha, cercando todo mundo que estivesse vivo. A era dourada do Karate em Okinawa tinha acabado. Todas as artes militares haviam sido banidas rapidamente pelas forças ocupantes americanas. Duas bombas atômicas destruíram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando uma estimativa de 200.000 pessoas. Três dias depois, bombardeiros americanos sobrevoaram Tokyo em tal quantidade que chegaram a cobrir o Sol. Tokyo foi bombardeada com dispositivos incendiários. Descobrindo que o governo do Japão estava a ponto de cometer um suicídio virtual sobre a imagem do Imperador, cartas secretas foram passadas para os japoneses garantindo sua segurança se eles assinassem sua “rendição incondicional”.

O Japão estava acabado, a Guerra do Pacífico também, mas o pesadelo de Funakoshi ainda havia de acabar. Então, Gigo (também conhecido como Yoshitaka, dependendo como se pronunciava os caracteres do seu nome), filho de Funakoshi, um promissor jovem mestre de Karate no seu próprio direito, aquele que Funakoshi estava contando para substituí-lo como instrutor do Shotokan, pegou tuberculose em 1945 e morre enquanto teimosamente recusa-se a comer a ração americana dada ao povo faminto. Funakoshi e sua esposa tentaram viver em Kyushu, uma área predominantemente rural, sob a ocupação americana no Japão. Mas, em 1947, ela morre, deixando Funakoshi retornar a Tokyo para reencontrar seus alunos de Karate que ainda viviam.

Depois que a guerra havia acabado, as artes militares haviam sido completamente banidas. Entretanto, alguns dos alunos de Funakoshi tiveram sucesso em convencer as autoridades que o Karate era um esporte inofensivo. As autoridades americanas concederam, mais por causa do desconhecimento do que era o Karate. Também, alguns homens estavam interessados em aprender as artes militares secretas do Japão, então as proibições foram eliminadas completamente em 1948.

Em Maio de 1949, os alunos de Funakoshi movem-se para organizar todos os clubes de Karate universitários e privados numa simples organização, e eles a chamaram de Nihon Karate Kyokai (Associação Japonesa de Karate). Eles nomearam Funakoshi seu instrutor chefe. Em 1955, um dos alunos de Funakoshi consegue arranjar um Dojo para a NKK. Em 1957, Funakoshi tinha 89 anos de idade. Ele foi um professor de escola primária e um estudante de Karate. Ele mudou-se para o Japão e trouxe o Karate consigo em 1922, dando ao Japão algo de Okinawa com seu próprio jeito pacifista. No processo, ele perdeu um filho, sua esposa, o prédio que seus alunos fizeram para ele, seu lar, e qualquer esperança de uma vida pacífica. Ele suportou uma Guerra Mundial que resultou em calamidade nacional,  ele treinou seus jovens amigos e conheceu suas famílias apenas para vê-los irem lutar e serem mortos pelas forças dos Estados Unidos. Ele viu o Japão queimar, ele viu os antigos templos e santuários serem totalmente aniquilados, ele viu bombardeiros enegrecerem o sol, e ele viu como um pilar de fumaça negra subia de cada cidade no Japão e envenenava o ar que ele respirava. Ele viu o Japão cair da glória para uma nação miserável, dependendo de suprimentos de comida e roupas dos seus conquistadores. O cheiro da fumaça e o cheiro dos mortos, os berros daqueles que foram deixados para morrer lentamente, o choro das mães que perderam seus filhos e esposas que nunca mais iriam ver seus maridos, o medo, o ruído ensurdecedor dos B-29’s voando sobre sua cabeça aos milhares, os clarões como os de trovões por todo o país quando as bombas explodiam em áreas residenciais, os flashes de luz na escuridão, a espera no rádio para poder ouvir a voz do Imperador pela primeira vez, somente para anunciar a rendição, a humilhação de implorar comida aos soldados, os intermináveis funerais e famílias arruinadas e lares destruídos.

Mestre Gichin Funakoshi, o “Pai do Karate Moderno”, morreu em 26 de Abril de 1957. Em seu túmulo negro, em forma de cruz, estão as palavras “Karate Ni Sente Nashi” (No Karate não existe atitude ofensiva). Pouco tempo antes de morrer ele disse:

-Acho que começo a entender o que é um verdadeiro TZUKI (Soco).

terça-feira, 26 de janeiro de 2021


Capoeira Regional

O Jogo

O jogo Regional, se caracteriza por ser jogado sob os toques da Capoeira Regional: São Bento Grande Regional, Idalina, Banguela, Amazonas, Iúna, segundo os princípios desenvolvidos pelo seu criador, Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba (1900-1947); quando Bimba começou a sentir que a “Capoeira Angola”, que ele praticava e ensinou por um bom tempo, tinha se modificado, degenerou-se e passou a servir de “prato do dia” para “pseudo-capoeiristas”, que a utilizavam unicamente para exibições em praças e, por possuir um número reduzido de golpes, deixava muito a desejar, em termos de luta.

Aproveitou-se então do “Batuque” e da “Angola” e criou o que ele chamou de “Capoeira Regional”, uma luta baiana.

Possuidor de grande inteligência, exímio praticante da “Capoeira Angola” e muito íntimo dos golpes do “Batuque”(O Batuque, é uma luta braba, violenta, onde o objetivo era jogar o adversário no chão usando apenas as pernas) , intimidade esta adquirida com seu pai, um mestre nesse esporte, foi fácil para Bimba, com seu gênio criativo, “descobrir a Regional”.

Não basta ser rápido qualquer toque para que se transforme em Regional o jogo. Tem regra. Tem jogo específico para os toques específicos, tem fundamentos próprios. Jogo Regional pode ser de fora, como também pode ser de dentro.

Pode ser alto ou baixo. Pode ser jogado na manha do toque da Banguela, que o Mestre criou para acalmar os ânimos. Mas tem que ser marcado, sincronizado no toque do berimbau único que segura a roda e dá o ritmo do jogo. Não tem que disparar apressado que não possa mais cantar. Pode ser manhoso também. Regional tem força, garra, ritmo e muita ciência também.

As características principais da Capoeira Regional são:

Exame de Admissão

Consistia de três exercícios básicos, cocorinha, queda de rins e deslocamento ( ponte ), com a finalidade de verificar a flexibilidade, força e equilíbrio do iniciante.

Em seguida a aula de coordenação onde o aluno aprendia a gingar auxiliado pelo Mestre Bimba. Para ensinar a ginga, Mestre Bimba convidava o aluno para o centro da sala e frente a frente pegava-o pelas mãos e ensinava primeiramente os movimentos das pernas e a colocação exata dos pés, e em seguida realizava o movimento completo em coordenação com os braços. Este momento era importantíssimo para o iniciante pois lhe transmitia coragem e segurança. Acordeon Ex-aluno do Mestre poeticamente diz ” … ELE ERA FORTE NA ALMA TINHA UMA FACA NO OLHAR QUE CORTAVA A GENTE DE CIMA A BAIXO QUANDO ESTAVA A ENSINAR…”.

Seqüência de Ensino de Mestre Bimba

O Mestre criou o primeiro método de ensino da capoeira, que consta de uma seqüência lógica de movimentos de ataque, defesa e contra-ataque, podendo ser ministrada para os iniciantes na forma simplificada, o que permite que os alunos aprendam jogando com uma forte motivação e segurança.

Jair Moura, Ex-aluno explica ” esta seqüência é uma série de exercícios físicos completos e organizados em um número de lições práticas e eficientes, a fim de que o principiante em Capoeira, dentro de um menor espaço de tempo possível, se convença do valor da luta, como um sistema de ataque e defesa “.

A seqüência original completa de ensino é formada com 17 golpes, onde cada aluno executa 154 movimentos e a dupla 308, o que desenvolve sobremaneira o condicionamento físico e a habilidade motora específica dos praticantes.

Os golpes integrantes da Seqüência são:

Aú

Armada

Arrastão

Bênção

Cocorinha

Cabeçada

Godeme

Galopante

Giro

Joelhada

Martelo

Meia Lua de Compasso

Queixada

Negativa

Palma

Meia Lua de Frente

Rolê

 

1ª Sequência

Jogador 1 – Meia-lua de frente, meia lua de frente, bênção e aú de rolê.
Jogador 2 – 
Cocorinha, cocorinha, negativa e cabeçada.

2ª Sequência

Jogador 1 – 2 Martelos, cocorinha, benção e aú de rolê.
Jogador 2 –
 2 Rasteiras, armada, negativa e cabeçada.

3ª Sequência

Jogador 1 – Queixada, queixada, cocorinha, bênção e aú de rolê.
Jogador 2 –
 Cocorinha, cocorinha, armada, negativa e cabeçada.

4ª Sequência

Jogador 1 – Godeme, godeme, arrastão e aú de rolê.
Jogador 2 – 
2 parada de godeme, galopante, negativa e cabeçada.

5ª Sequência

Jogador 1 – Arpão de cabeça, joelhada e aú de rolê.
Jogador 2 – Cabeçada, negativa e cabeçada.

6ª Sequência

Jogador 1 – Meia-lua de compasso, cocorinha, joelhada lateral, aú de rolê.
Jogador 2 – Cocorinha, meia-lua de compasso, negativa e cabeçada.

7ª Sequência

Jogador 1 – Armada, cocorinha, benção, aú de rolê.
Jogador 2 – Cocorinha, armada, negativa e cabeçada.

8ª Sequência

Jogador 1 – Bênção e aú de rolê.
Jogador 2 – Negativa e cabeçada.

Cintura Desprezada é uma seqüência de golpes ligados e balões, também conhecidos como Movimentos de Projeção da Capoeira, onde o capoeirista projeta o companheiro, que deverá cair em pé ou agachado jamais sentado. Tem o objetivo de desenvolver a auto-confiança, o senso de cooperação, responsabilidade, agilidade e destreza.

Os golpes que fazem parte desta seqüência são:

 

CINTURA DESPREZADA

Aú

Balão de Lado

Tesoura de costas

Balão Cinturado

Apanhada

Gravata Alta

Batizado

Momento em que o iniciante jogava pela primeira vez na roda com o acompanhamento de instrumentos. No batizado, o mestre escolhia o formando que jogaria com o calouro e então tocava “São Bento Grande”, toque que caracterizava a capoeira regional.

Para isso o calouro era colocado no centro da roda, onde o mestre escolhia um apelido a ele. Depois de definido o “nome de guerra” o mestre mandava o calouro pedir a “Benção” do padrinho, que ao estender a mão recebia uma Benção que o jogaria no chão.

Formatura

A cerimônia iniciava com uma roda de formados antigos para que as madrinhas e os convidados pudessem ver o que era a Capoeira Regional. Mestre Bimba ficava ao lado do som, que era formado por 1 Berimbau e 2 pandeiros, comandando a roda e cantando as músicas características da Regional.

Terminada a roda, o mestre chamava o orador que geralmente era um formado mais antigo para falar um breve histórico da Capoeira Regional e do mestre.

Após o histórico, o mestre entregava as medalhas aos paraninfos e os lenços azuis (Graduação dos Formados) as madrinhas. Os paraninfos colocavam a medalha ao lado esquerdo do peito do Formado e as madrinhas colocavam os lenços nos pescoços dos seus respectivos afilhados.

A partir dai os formados demonstravam alguns movimentos a pedido do mestre para mostrar a sua competência, incluindo os movimentos de “cintura desprezada”, “jogo de floreio” e o “escrete” que era o jogo combinado com o uso dos Balões.

Para terminar, chegava a hora do “Tira-medalha” onde o recém formado jogava com um formado antigo que tentava tirar a sua medalha com qualquer golpe aplicado com o pé. Só então depois de passar por isso tudo é que o aluno poderia se considerar aluno formado de mestre Bimba, tendo direito até de jogar na roda quando o mestre estivesse tocando Iuna que era o toque criado por ele para esse fim. A partir dai só restava o curso de especialização que veremos a seguir.

Especialização

Tinha duração de 3 meses, sendo 2 na academia e 1 nas matas da Chapada do Rio Vermelho. Tratava-se de um treinamento de guerrilha, onde aconteciam as emboscadas, armadilhas e etc. , que consistia em submeter o formado a situações das mais difíceis, desde defender-se de 3 ou mais Capoeiristas, até defender-se de armas.

Terminado o curso, o mestre fazia a mesma festa para os novos especializados, e estes recebiam o lenço vermelho que representava a nova graduação. O aluno que se formava ou se especializava, tinha a obrigação de pendurar um quadro com a foto mestre, do padrinho, do orador, e a própria foto.

Fonte: capoeira_regional.vilabol.uol.com.br

Capoeira Regional

Graduação da Capoeira Regional

A Capoeira Regional segue o sistema de graduação do aluno como em outros esportes, a exemplo do Karatê, Judô, que usamos as faixas coloridas como o laranja, marrom, roxo e preto.

A capoeira também recebeu esta influência, que originou os cordões.

Só que a capoeira Regional dar seguimento a preferência e pela combinação das cores da bandeira brasileira, criada pela Confederação Brasileira de Capoeira (CBC), que vai do 1° ano ao 5° estágio e de aluno formado a mestre.

Seguindo a ordem das cores: Verde, Amarelo, Azul, Verde-Amarelo, Banco-Azul e por último Branco.

Hoje temos observado que existe uma grande preocupação por parte do aluno em trocar logo de cordão, esquecendo a parte mais importante do esporte, o conhecimento, os valores dos golpes de defesa e ataque, ter consciência da importância de praticar o esporte, entender a filosofia, ter a convicção e a vocação do que realmente deseja, para exerce-lo com equilíbrio e disciplina.

Não adianta receber cordão e não saber onra-los, em outras palavras, não ser digno e nem ser capacitado, não ter competência. Não só em nível do esporte capoeira, mas como em qualquer outra modalidade do esporte.

Adriano Vitorazzi

Fonte: www.mpalmares.jex.com.br

Capoeira Regional

A Capoeira Regional é uma manifestação da cultura baiana, que foi criada em 1928 por Manoel dos Reis Machado ( Mestre Bimba ). Bimba utilizou os seus conhecimentos da Capoeira Angola e do Batuque (espécie de luta-livre comum na Bahia do século XIX) para criar este novo estilo.

Para fugir de qualquer pista que lembrasse a origem marginalizada da capoeira, mudou alguns movimentos, eliminou a malícia da postura do capoeirista, colocando-o em pé, criou um código de ética rígido, que exigia até higiene, estabeleceu um uniforme branco e se meteu até na vida dos alunos.

As características principais da Capoeira Regional são:

1. Exame de Admissão

Consistia de três exercícios básicos, cocorinha, queda de rins e deslocamento (ponte), com a finalidade de verificar a flexibilidade, força e equilíbrio do iniciante. Em seguida a aula de coordenação onde o aluno aprendia a gingar auxiliado pelo Mestre Bimba.

Para ensinar a ginga, Mestre Bimba convidava o aluno para o centro da sala e frente a frente pegava-o pelas mãos e ensinava primeiramente os movimentos das pernas e a colocação exata dos pés, e em seguida realizava o movimento completo em coordenação com os braços. Este momento era importantíssimo para o iniciante pois lhe transmitia coragem e segurança.

2. Seqüência de Ensino de Mestre Bimba

O Mestre criou o primeiro método de ensino da capoeira, que consta de uma seqüência lógica de movimentos de ataque, defesa e contra-ataque, podendo ser ministrada para os iniciantes na forma simplificada, o que permite que os alunos aprendam jogando com uma forte motivação e segurança. Jair Moura, Ex-aluno explica: “Esta seqüência é uma série de exercícios físicos completos e organizados em um número de lições práticas e eficientes, a fim de que o principiante em Capoeira, dentro de um menor espaço de tempo possível, se convença do valor da luta, como um sistema de ataque e defesa”.

A seqüência original completa de ensino é formada com 17 golpes, onde cada aluno executa 154 movimentos e a dupla 308, o que desenvolve sobremaneira o condicionamento físico e a habilidade motora específica dos praticantes.

Os golpes integrantes da seqüência são:

Aú Armada Arrastão Bênção Cocorinha Cabeçada Godeme Galopante Giro Joelhada Martelo Meia Lua de Compasso Queixada Negativa Palma Meia Lua de Frente Role

3. Cintura Desprezada

É uma seqüência de golpes ligados e balões, também conhecidos como Movimentos de Projeção da Capoeira, onde o capoeirista projeta o companheiro, que deverá cair em pé ou agachado jamais sentado. Tem o objetivo de desenvolver a autoconfiança, o senso de cooperação, responsabilidade, agilidade e destreza.

Os golpe que fazem parte desta seqüência são: Aú Balão de lado Tesoura de costas Balão cinturado Apanhada Gravata alta

4 – Batizado

É um momento de grande significado para o aluno, pois encontra-se apto para jogar pela primeira vez na roda. Itapoan, Ex-aluno retrata o Batizado da seguinte maneira: “O Batizado consistia em colocar em cada calouro um nome de guerra.

O tipo físico, o bairro onde morava, a profissão, o modo de se vestir, atitudes, um dom artístico qualquer, serviam de subsídios para o apelido”. Fred Abreu referindo-se ao batizado, cita que na intimidade da Academia de Mestre Bimba ele assim se dizia “Você hoje vai entrar no aço”. Desta maneira o Mestre avisava ao calouro que chegou a hora do seu batizado, era um momento de grande emoção, pois tratava-se de jogar capoeira pela primeira vez na roda amimada pelo berimbau.

Para este jogo era escolhido um formado ou um aluno mais velho da Academia que estivesse na aula, que como padrinho incentivava ao afilhado a jogar, e após o jogo o Mestre no centro da roda levantava a mão do aluno e então era dado um apelido com o qual passaria a ser conhecido na capoeira.

5 – Esquenta Banho

Segundo Itapoan o “esquenta banho” originou-se da necessidade dos alunos de se manterem aquecidos. Logo após o termino da aula todos os praticantes corriam para o banheiro afim de tomarem uma chuveirada, no entanto o banheiro da academia era pequeno com um só chuveiro com água fina, o que proporcionava um congestionamento e a inevitável fila.

Para não esfriar o corpo, os alunos mais velhos, normalmente os formados tomavam a iniciativa e começava o “Esquenta Banho”. Este era um momento fértil da aula, pois se tratava do espaço do aluno, também chamado de “Bumba Meu Boi” ou “Arranca Rabo” devido aos freqüentes desafios para o acerto de contas, como exemplo, descontar um golpe tomado durante a roda. Muitos formados aproveitavam para testar suas capacidades desafiando dois, três, ou mais adversários.

Também era muito comum o utilizar esse momento para o treinamento de golpes difíceis e sofisticados como: vingativa, rasteira, banda de costa e etc.

Formatura: A formatura era um dia todo espacial para o Mestre e seu alunos, um ritual com direito a paraninfo, orador, e madrinha, lenço de seda azul e medalha. A festa era realizada no Sítio Caruano no Nordeste de Amaralina na presença dos convidados e de toda a academia.

Os formando vestidos todo de branco, usando basqueteira, atendiam o chamado do Mestre Bimba que solicitava a demonstração de golpes, seqüência, cintura desprezada, jogo de esquente (jogo combinado), em seguida a prova de fogo, o jogo com os formados, também chamado de “Tira Medalha”, um verdadeiro desafio, onde os alunos formados antigos tentavam tirar a medalha dos formados com o pé, e assim manchar a dignidade e roupa impecavelmente branca. Itapoan descreve com muita propriedade, “O objetivo do formado antigo era tirar com um golpe aplicado com o pé, a Medalha do peito do formando, caso isso acontecesse, o aluno deixava de formar, o que era um vexame!”.

Por isso o aluno jogava com todos os seus recursos, enfrentando um capoeirista malicioso e técnico até o momento que o Mestre apitasse para encerrar o jogo. Aí, o formando conferia se a medalha continuava presa ao peito, que alivio estava formado! Dando continuidade ao ritual de formatura acontecia as apresentações de maculelê, Samba de Roda, Samba Duro e Candomblé.

7. Iuna

A Iuna é uma marca registrada da Capoeira Regional de Mestre Bimba, é um toque de berimbau criado pelo Mestre, que era tocado no final das aulas ou em eventos especiais, uma toque onde só os alunos formados tinham acesso a roda, com a obrigatoriedade de realizar um “jogo de floreio”, bonito, criativo, curtido, malicioso e que deveria ter movimentos de projeção. Este jogo suscitava muita admiração e emoção.

8. Curso de Especialização

Este era um curso secreto onde só poderia participar os alunos formados por Mestre Bimba.

Tinha como objetivo o aprimoramento da capoeira, com uma ênfase para os ensinamentos de defesa e contra-ataque de golpes advindos de um adversário portando armas como: navalha, faca, canivete, porrete, facão e até armas de fogo. Sua duração era de três meses divididos em dois módulos, o primeiro com a duração de sessenta dias e era desenvolvido dentro da academia através de uma estratégia de ensino muito peculiar do Mestre.

O segundo com duração de 30 dias e era realizada na Chapada do Rio Vermelho, tinha como conteúdo as “emboscadas”, a qual Itapoan assim se refere “Uma verdadeira guerra, verdadeiro treinamento de guerrilha. Bimba colocava quatro a cinco alunos para pegar um de emboscada.

O aluno que tivesse sozinho, tinha que lutar até quando pudesse e depois correr, saber correr, correr para o lugar certo”. Ao final do curso o Mestre Bimba fazia uma festa aos moldes da formatura e entregava aos concluintes um “Lenço Vermelho” que correspondia a uma titulação de Graduação dos Formandos Especializados.

9. MúsicasPodemos dividir em duas partes

A primeira referente aos toques de Berimbau, São Bento Grande, Santa Maria, Banguela, Amazonas, Cavalaria, Idalina e Iúna. A rigor cada toque tem um significado e representa um estilo de jogo. São Bento Grande é um toque que tem ritmo agressivo, indica um jogo alto com golpes aprimorados e bem objetivos, um “jogo duro”.

A Banguela é um toque que chama para um jogo compassado, curtido, malicioso e floreado. Cavalaria é o toque de aviso, chama a atenção dos capoeiristas que chegou estranhos na roda, outrora avisava da aproximação de policiais. Iúna é um toque especial para os alunos formados por Mestre Bimba, incita um jogo amistoso, curtido, malicioso e com a obrigatoriedade do esquente. Santa Maria, Amazonas e Idalina são toques de apresentação. A segunda eferência é sobre as musicas – quadras e corrido.

As quadras são pequenas ladainhas com versos composto de 4 a 6 linhas. O corrido são cantigas com frases curtas que é repetido pelo coro. Plasticamente a Capoeira Regional é identificada pêlos golpes bem definidos, pernas esticadas, movimentos amplos, jogo alto e objetivo.

Fonte: 360graus.terra.com.br

Capoeira Regional

“CAPOEIRA – ANGOLA, REGIONAL ou CONTEMPORÂNEA”

“Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade!”

Introdução

Nesta entrada de milênio, o universo da Capoeira se expandiu apresentando faces muito diferentes das que apresentou nos últimos séculos.

Num primeiro contato se encontram dois ícones e dois estilos: Mestre Pastinha e a Capoeira Angola e Mestre Bimba com a Capoeira Regional. Mas, atualmente, no ambiente da Capoeira, rico em diversidades, há uma confusão semântica na origem, no desenvolvimento e na complexidade de formas de capoeiragem existentes. Este texto procura colocar um pouco de ‘lenha na fogueira’ nas definições. E se propõe a uma nova forma de ver as capoeiras.

Se há menos de 100 anos a Capoeira estava no código penal brasileiro,inclusive com presídio em Fernando de Noronha, para onde eram enviados os capoeiristas presos, hoje em dia possui a fama de único esporte genuinamente brasileiro, presente em muitos países, buscando se tornar esporte olímpico.

Chegamos à virada do século com um “Curso Superior Profissional Específico em Capoeira” na Universidade Gama Filho, no Rio, e temos um número de capoeiristas em atividade como nunca houve na história. Por outro lado, uma minoria destes capoeiristas fazem Angola ou Regional enquanto quase a totalidade não faz nenhum destes estilos. Outros acham que fazem os dois…

Na sociedade capitalista globalizada temos que tomar muito cuidado com os conceitos.

São várias as formas de expressão do poder e autoritarismo que geram sempre o mesmo resultado: exploração do homem pelo homem e desigualdade social, enfim, a destruição da vida. A história humana é escrita pelos vencedores e sempre interpretada buscando mostrar mudanças através das evoluções técnicas e tecnológicas, que são utilizadas para escrever as “páginas da desumanidade”, onde há pouca evolução social e política.

São várias as formas dessa ‘ilusão da evolução’, seja pela estrutura hierarquizada desvendada por Etienne de La Boétie, no século XVI no “Discurso da Servidão Voluntária”, passando por Wilhelm Reich mostrando como isso é feito na educação e, principalmente, nas famílias, e em “A Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord, onde, alienados, aceitamos o espetáculo do cotidiano.

Mostrada também atualmente nas denúncias do maior intelectual vivo, Noam Chomsky, que aponta um ‘consenso fabricado’ mantido pela mídia e pela sociedade de consumo.   

A Soma, terapia criada por Roberto Freire, por sua vez, vem há quase quarenta anos desafiando os conceitos. Depois de uma pesquisa coletiva e individual dentro da Soma, por mais de dez anos estudando a Capoeira como instrumento científico de libertação, observei visões práticas diferentes.

Para melhor entendimento da minha linha de pesquisa, este texto aborda um dos vários pontos que pretendo aprofundar em livro, que estou escrevendo e pretendo publicar ainda este ano. Assim, me reservo agora somente introduzir e questionar os estilos de Capoeira.

Vários pontos geram confusões na Capoeira, como o conceito de mestre e a ideologia por trás de conclusões históricas. Mestre pode ser um título, um certificado em papel ou um reconhecimento por um outro Mestre. Pode ser também o ato pedagógico de ensinar; qualquer um, à medida que ensine algo novo a outra pessoa, é mestre. E ainda há o reconhecimento pela comunidade, por méritos e experiência vivida (geralmente pessoas mais velhas se tornam mestres assim).

Mestre aparece na roda, no ritmo, no canto, no jogo e na liderança através dos diálogos da Angola. Mestre expõe seu comportamento na Roda de Capoeira, alguns também são mestres na roda da vida.

Em pesquisa de 1997, escolhi o termo ARTE (os termos ‘folclore’ e ‘esporte’ são mais rígidos, pois sofrem menos mudanças no decorrer do tempo) para conceituar a Capoeira. Coletei os termos Angola, Regional, ‘Contemporânea’, Atual e de Rua, mas não aprofundei suas diferenças.

Os três estilos que atualmente vejo vivos e distintos entre si, são:

Capoeira Angola,
Capoeira Regional, 
Capoeira ‘Contemporânea’ (para evitar confusões escolhi ‘Contemporânea’ para substituir o termo ‘angola-e-regional’, quando o capoeira se diz praticante dos dois estilos anteriores).

Mas fica o alerta: Com a arte da Capoeira Angola em movimento, este texto, em poucos anos (ou décadas), ficará ultrapassado.

Sendo Arte, a Capoeira se modifica e preserva em sua própria estrutura o conceito mais arcaico e Bantu de movimento: “Para os Bantu, especialmente os Congo, viver é um processo emocional, de movimento. Viver é movimentar, e movimento é aprender”.

O movimento básico no jogo da Capoeira, a ginga (“um andar sem sair do lugar…”), é uma homenagem à guerreira e rainha africana N’Zinga N’Bandi (1582-1663/1680, ou D. Ana de Sousa, nome de batismo na religião católica), que lutou por mais de quarenta anos contra a colonização e a escravidão no Congo e em Angola. A Capoeira adotou o local de sua luta para nomear-se e homenageou seu movimento corporal básico inspirado na mulher que movimentou sua sociedade, politicamente, de baixo para cima.

O termo Angola vem de N’Gola N’Bandi que foi um rei que resistiu por várias vezes a expedições dos colonizadores portugueses, contra-atacando os vitoriosamente. Quando em 1558, os povos nômades invadiram e destruíram o sul do reino de Congo, os reinos de N’Dongo e Matamba; um dos chefes, N’Gola N’Zinga doou a seu filho N’Gola N’Bandi o reino de N’Dongo, passando este a designar o nome do reino conquistado (N’Gola: Angola).

Somos em grande parte descendentes dos angolanos, e a vinda de escravos que eram reis e conhecedores profundos da cultura negra, se por um lado enriqueceu a cultura brasileira, favoreceu a atual miséria do povo africano. Somos assim responsáveis pela destruição da África, foi o início da globalização econômica, iniciada neste período do tráfico colonial com apoio da igreja católica, e que continua sua destruição até hoje.

Os locais de manifestação da Capoeira são sempre variados. Vão de recintos fechados às ruas, assim a categorização proposta por mim se baseará não no local e sim em como é realizada a RODA de Capoeira, seu ritual, ritmo, relação de movimentos de ataque e defesa, cantos e energia.

Não querendo fechar conceitos, e sim questioná-los e abri-los ao diálogo, trago apenas alguns aspectos históricos e outros atuais, nos quais se poderão perceber estilos que se respeitam, mas que ocupam espaços distintos. Assim torna-se necessário desvendar aspectos mínimos de distinção entre capoeiras, já separadas numa realidade múltipla.

A história da Capoeira Angola é a história da marginalidade brasileira, com conflitos étnicos, econômicos e sexuais que se preservam ainda hoje em uma sociedade das mais paradoxais: riqueza de bens de produção e consumo, riqueza ambiental e a riqueza da miscigenação étnica e cultural em contraste com uma pobreza social, absurdamente aceita.

Origens da Capoeira Angola 

Tudo começa na mãe África, continente originário dos primeiros homens que se espalharam pelo mundo, gerando todos os povos. O tráfico de escravos através do Atlântico foi um dos grandes empreendimentos comerciais e culturais que marcaram a formação do mundo moderno e a criação de um sistema econômico mundial (início da globalização). A participação brasileira nesta trágica aventura é estimada em 40% dos 15 milhões ou mais de homens e mulheres arrancados de suas terras. Pesquisas variam quanto à interpretação da ancestralidade africana da Capoeira.

Sem querer definir uma verdade, mas tentando levantar possibilidades, trago três versões da origem da Capoeira:  

Nas pesquisas do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), Mestre Moraes acredita “ser a Capoeira de origem africana, mais precisamente da Ilha de Lubango, na aldeia dos MUCOPES, localizada no sul de Angola. (…) Na época do acasalamento das zebras, os machos, a fim de ganharem a atenção das fêmeas, travavam violento combate. Daí os jovens guerreiros mucopes passarem a imitar alguns passos desse ritual, que denominaram de N’GOLO. Os habitantes dessa aldeia realizavam uma vez por ano uma grande festa com o nome de EFUNDULA, ocasião em que as meninas que já tinham atingido a puberdade e, estando assim prontas para o casamento, teriam como marido aquele guerreiro que tivesse a melhor performance na prática do N’GOLO”. Para a maior parte dos angoleiros, como os Mestres João Pequeno e João Grande, deste ritual deriva a Capoeira;              
Nas pesquisas de Mestre Camisa do “ABADA-Capoeira”, “a Capoeira é fruto dessa fusão de culturas, lutas e rituais africanos, no Brasil”. Como o N’GOLO, a “BAÇULA”, ritual da Ilha do Cabo “(…) onde um derruba o outro através de agarramento, balões, pegar as pernas para derrubar, pescoço, cintura, o objetivo é derrubar o adversário (…) Eu acredito que os golpes de derrubar, de desequilibrar na Capoeira, tenham vindo da Baçula. Tem também a ‘kabangula’, que é uma luta de mão, que é um tipo de boxe com as mãos abertas. (…) Tem também o ‘Umundiu’, que é um ritual, um jogo, que usa as mãos e os pés, e tem também as danças acrobáticas”; –         Para Mestre Cobrinha Verde (herdeiro de um dos maiores capoeiristas de todos os tempos, Besouro Mangangá), “a Capoeira nasceu no Recôncavo, em Santo Amaro, criada pelos africanos que viveram acorrentados para trabalharem nos engenhos. Na África, eles usavam uma dança denominada de batuque. (…) Dessa dança é que foi construída a capoeira.”;              
Termino esta etapa das origens, com Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha – 5/04/1889-13/11/1981): “…entre os mais antigos mestres de Capoeira figura o nome de um português, José Alves, discípulo dos africanos e que teria chefiado um grupo de capoeiristas na guerra dos Palmares. A história da Capoeira se inicia com a vinda dos primeiros escravos africanos para o Brasil” .

Onde a confusão aumenta… 

Existe uma névoa sobre a História da Capoeira, principalmente pela sua tradição oral e marginal. Os aspectos históricos, quando sem contextualização e aprofundamento, servem mais à confusão que ao esclarecimento. Uma informação ‘clássica’ sobre a desinformação da capoeiragem é a queima dos registros da escravidão no Brasil, por Ruy Barbosa, quando Ministro da Fazenda, em 15/12/1890. Esta informação, publicada em livro e revistas, é acrescentada do que se diz que ele fez isso para “apagar da memória brasileira essa lamentável instituição”.

Agora, quando contextualizamos essa informação e a criticamos, ela passa a ter outras interpretações: seria queimando os registros que se apagaria da memória a ‘lamentável’ escravidão? Penso que somente aprenderemos com o passado, e não o repetiremos, se pudermos ter mais informações. Esquecer os erros do passado é a melhor forma de repeti-los.

Além do mais, a simples queima dos arquivos não faria esquecer a escravidão. Na realidade, foi uma estratégia do governo para evitar que ex-proprietários de escravos buscassem uma compensação dos prejuízos que tiveram com a abolição da escravatura, dois anos antes.

Em 1998, com a publicação da primeira revista de distribuição nacional dedicada somente à Capoeira, houve um crescimento de informações disponíveis ao grande público. Logo em seguida, um ‘boom’ editorial com várias revistas ao mesmo tempo, mas a maioria não durou muito. Nessas revistas, com erros de revisão e de impressão, repetiam-se muito as informações, que se destinavam mais a divulgar grupos e egos. Por outro lado, houve a possibilidade de se encontrar muitas pesquisas sérias e aprofundadas.   

A importância da Capoeira na sociedade brasileira está sendo descoberta aos poucos, mas nunca teremos uma visão real do que se passou na marginalidade. A partir da década de 80 são inúmeras as peças de um quebra-cabeça que surgem em estudos acadêmicos e de grupos independentes, que investigaram seriamente o passado da Capoeira.

Como já coloquei, o tema deste artigo é outro, mas para quem queira pesquisar, é curioso como os capoeiristas famosos da nossa história, como Plácido de Abreu, Duque Estrada, Barão do Rio Branco, entre tantos, são omitidos no ensino brasileiro.

E ainda há a importância dos capoeiristas brasileiros na Guerra do Paraguai, inclusive sendo o capoeira Chico Diabo (Cabo Francisco Lacerda) quem matou o presidente paraguaio Francisco Solano López em 1870, causando o fim da guerra.

Há uma separação entre o que foi a Capoeira desde as suas origens até o momento em que houve a cooptação pelo sistema dominante. Ela nasceu como uma arte de libertação, ajudando o negro, e depois os marginais a manterem um elo com seu passado.

Uma arte negra que no Brasil foi se fortalecendo com contribuições variadas, inclusive dos indígenas, que apoiavam os negros em suas fugas no mato. Pois é sabido que os quilombos foram sociedades livres variadas: 70% da população dos oito principais quilombos eram negros, sendo 25% de índios e 5% de brancos, todos refugiados. Houve também contribuições dos portugueses Fadistas (cantores de Fado). Ágeis na luta corporal e no manejo da navalha, os Fadistas viviam nas ruas de Lisboa e do Porto no séc. XIX .

O momento político de 1888-1889, ano da Abolição seguido pelo da Proclamação da República, mostra como o Estado Brasileiro conseguiu mudar para se manter igual na essência. A ‘revolução social e política’, chamada por Deodoro em sua Proclamação de ‘revolução nacional’, não alterava a relação dominador versus dominado (em cima x embaixo). “Eles administraram de tal maneira as mudanças no modo de produção que os ex-escravos – assim como os contandini e os bracianti, imigrados italianos que engrossaram então a classe subalterna – não tiveram, por força da lei, naquele transe, garantias de acesso à posse ou à propriedade da terra, ao trabalho e, muito menos, ao salário”.

Sabemos que os primeiros decretos proibindo a Capoeira datam de 1814, seis anos após a chegada da Família Imperial ao Brasil. Nesse período, a população brasileira era de 3,6 milhões de habitantes, sendo 1,9 milhões (mais da metade) de escravos.

A partir de 1890, na República, a Capoeira entra no Código Penal. Assim, depois de séculos de marginalidade, ela foi proibida oficialmente por mais de 120 anos. Temos menos de 70 anos de experiência de capoeiragem liberada.

Com origem provável no século XVI e desenvolvimento múltiplo nos séculos XVII, XVIII e XIX, a Capoeira sobreviveu a muitas mudanças. Não se constituindo de uma unidade de forma e ritos, foi capaz de dialogar “com novos contextos, adaptando-se no detalhe para conservar o essencial daquilo que a constituiu” .

Sem dúvida, ela desenvolveu um potencial de luta que gerou as insurreições dos escravos – particularmente nas províncias que constituíam a zona do Paraíba ou grande zona do café, forçando a Lei Áurea. Aparecendo também como “defensora da pátria” na Guerra da Cisplatina (1825-1828) e na Guerra do Paraguai (1865-1870).

Utilizada militarmente não só nas guerras, como nas eleições, por exemplo, em 1909, os cabos eleitorais capoeiristas elegeram o deputado negro e monarquista Dr. Monteiro Lopes, no Distrito Federal (RJ). No mesmo ano, estudantes cariocas promovem a luta entre o capoeira Ciríaco Francisco da Silva e o lutador de Jiu-jitsu Sada Miako.

Com a vitória, Ciríaco tornou-se alvo de todas as atenções, inclusive sendo destaque em revistas nacionais. Enquanto isso, na marginalidade, de 1902 a 1909, na ‘Escola de Aprendizes da Marinha’, Mestre Pastinha ensinava aos seus colegas a arte aprendida com o africano Mestre Benedito.

Capoeira Regional 

O processo de mutação da Capoeira é muito antigo. Em 1874, Raul Pederneira descreve na Gíria Carioca a primeira nomenclatura de movimentos e defende uma “desesportivização” da Capoeira. No Rio de Janeiro, em 1907, um oficial militar escreve o “O Guia do Capoeira ou Ginástica Brasileira”. Em 1928, o capoeirista Annibal Burlamaqui, conhecido como Zuma, publica “Ginástica Nacional – Capoeiragem – Metodizada e Regrada”.

Alguns dizem que influenciou Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado, 1899/1900-1974), que cria a Luta Regional Baiana, fundando sua academia em 1932 Mestre Nenel discorda dizendo que M. Bimba já tinha sua metodologia sendo desenvolvida desde 1918. Mestre Decânio aponta a importância de Dr. José “Sisnando” Lima para a fundação da Regional.

Numa época em que a Capoeira era crime, Mestre Bimba a modifica, introduzindo novos golpes e uma sistematização do ensino. Consegue, depois de anos de muito esforço, a primeira autorização do Estado para a prática da Capoeira, em 9/7/1937, de um militar do Exército, o interventor federal do Estado Novo (primeira ditadura brasileira no século passado) na Bahia, Juracy Magalhães.

 Novas mudanças nessa atribulada história de quase 400 anos: por estratégia militar de Getúlio Vargas, acontece a cooptação da Capoeira, numa tentativa de controle e de transformá-la em Educação Física e Esporte, dentro de seu projeto populista. Em 1934, Getúlio Vargas, interessado no voto feminino, dos analfabetos, dos soldados, etc, extingue o decreto-lei que proibia a Capoeira e a prática de cultos afro-brasileiros.

Mas, por outro lado, obriga que tanto os cultos quanto à Capoeira sejam realizados fora da rua, em recintos fechados, com um alvará de instalação. Novamente, o que parece com ‘liberdade’ é, na verdade, ‘controle’. Tanto que no final da década de 40 ainda havia a cavalaria da polícia impedindo a Capoeira na rua (e o toque de cavalaria no berimbau, avisando os capoeiras…).

Interessante que nasce a Capoeira Regional a partir da Angola, por estratégia, com outro nome: Luta Regional. Nesse contexto, a Capoeira tradicional começa a ser chamada de Angola para uma melhor diferenciação. Em 1953, o Presidente Getúlio Vargas assiste a uma demonstração de Mestre Bimba e comenta sobre a Capoeira: “a única colaboração autenticamente brasileira à educação física, devendo ser considerada a nossa luta nacional”.

Com o crescimento da Regional, que era freqüentada por estudantes e trabalhadores com carteira assinada, a Angola continuou à margem da institucionalização até 23 de fevereiro de 1941, quando grandes mestres da época entregaram a Mestre Pastinha a responsabilidade de preservar a arte da Angola. Assim nasce o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), registrado somente em 1/10/1952. Em 1955, instala-se no Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia.

Apesar da aparente rixa entre os estilos, havia um respeito mútuo. Tanto os alunos de Mestre Bimba podiam freqüentar as rodas de Mestre Pastinha, como o contrário. Todos eram bem recebidos, até porque os golpes criados por Mestre Bimba não eram utilizados com alunos de outras escolas que não utilizassem o seu método.

Começou então uma aceitação da junção das capoeiras. Relata Mestre Canjiquinha, que foi contra-mestre de bateria de Mestre Pastinha: “Não existe capoeira regional nem angola. Existe capoeira. (…) Eu sou capoeirista. Não sou nem angoleiro nem regional. (…) Agora, capoeira é de acordo com o toque. Se você está numa festa: se tocar bolero você dança bolero; se tocar samba você dança samba; – a capoeira é conforme: tocando maneiro você dança amarrado, tocando apressado você apressa.”.

Onde a confusão se espalha…  

O Rio de Janeiro também possui uma rica história marginal da Capoeira e uma rica influência das maltas de capoeiras ligadas à criminalidade e à política, que formavam quase um exército paralelo. Mais tarde, porém, houve o enfraquecimento da Capoeira carioca e uma “invenção da tradição” da Capoeira baiana.

Mestre Bimba leva seus alunos para São Paulo em 1949 para competir em luta livre: das cinco lutas, ganham três por nocaute. Mestre Bimba também viaja apresentando a Regional: em 1955, em Fortaleza-CE (Teatro José de Alencar); em 1956, no Rio de Janeiro (Maracanãzinho) e, em São Paulo (inauguração da TV Record); e, em 1968, em Teófilo Otoni-MG. Mestre Pastinha e o CECA viajam fazendo demonstrações em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Recife. 

Apesar da existência de capoeiristas tradicionais no Rio, em 1964 começa um fenômeno novo. Alunos com pouca experiência na Angola e na Regional se juntam e formam o grupo carioca que viria a se chamar Senzala e a influenciar muito a Capoeira no sul/sudeste do país, tanto pela descaracterização (afastamento de rituais tradicionais), como pela incorporação de novas técnicas de ensino.

Em São Paulo, através de pioneiros como Mestre Zé de Freitas (discípulo do maior cantador de Capoeira Angola de todos os tempos, Mestre Waldemar da Paixão – BA) e Mestre Valdemar Angoleiro, abriu-se espaço para a vinda, na década de 60, de capoeiras que migram da Bahia buscando melhores condições de vida. Vieram mestres angoleiros e regionaleiros.

Devido à falta de tradição da Capoeira na capital paulista, para melhor sobrevivência econômica desses mestres, há a necessidade de apoio mútuo. Mestre Suassuna, por exemplo, ajudou muitos capoeiristas a se estruturarem. Este processo de adaptação e sobrevivência é melhor exemplificado com a fundação, em 1967, da Academia Cordão de Ouro, formada pelos mestres Brasília e Suassuna, o primeiro da linhagem Angola de Mestre Canjiquinha e o segundo da linhagem Regional de Mestre Bimba.

O que era impossível para Mestre Pastinha e Mestre Bimba acontece: a fusão de estilos se torna uma realidade.

Na década de 50, a Capoeira chega a Belo Horizonte. Em 1963, Mestre Pastinha se apresenta na Universidade Católica, mas somente na década de 70 é que crescem as academias e a Capoeira se fortalece nas praças, sendo criada uma roda na Praça Liberdade, onde o público se reunia para ver a ‘vadiagem’.

Por causa desta roda, surgiu a famosa Feira Hippie, que se desenvolveu e virou um marco na cidade (hoje está na Av. Afonso Pena), no entanto poucos falam dessa origem ligada à Capoeira. Em Curitiba, em 1973, a Capoeira se implanta através de Mestre Sergipe, depois que Mestre Eurípedes passou por lá no início da década de 70.

Mestre Sergipe foi contra-mestre do angoleiro Mestre Caiçara, mas, como Mestre Brasília, também mudou de estilo. Em 1975, com a chegada de Mestre Burguês, a Capoeira se espalha na cidade. 

Ainda seguindo a história do poder cooptando a Capoeira, em 1968 e 1969 (segunda ditadura militar do século passado), a Comissão de Desportos da Aeronáutica patrocina dois simpósios nacionais sobre Capoeira com o intuito principal de estabelecer uma única nomenclatura para os golpes e defesas.

Entre os vários mestres participantes estava Mestre Bimba, que se retira antes do término do segundo simpósio por não aceitar que a Capoeira Regional se fundisse com outras regras e ‘modismos’ (no primeiro simpósio ele enviou Mestre Decânio para representá-lo).

Interessante também que foram vários os capoeiristas que desejaram ter o mérito de Mestre Bimba, criando estilos com nomes e características próprias como a Capoeira Estilizada, a Muzenza, a Saramango, a Primitiva, a Barravento, etc. Mas nada disso vingou além de seus grupos e descendências.  A não ser a criação coletiva da Capoeira ‘Angola-e-Regional’, que a meu ver, repito, não é nem Angola nem Regional.

A década de 70 é fundamental no encolhimento da Angola tradicional, resgatada por Mestre Pastinha.  Em 1971, ele é enganado e perde sua academia no Largo do Pelourinho nº 19 e, em 1979, sofre derrame cerebral. Em 1981, morre cego, na miséria e quase esquecido. Com a morte de Mestre Bimba em 1974, também esquecido, enganado e na miséria, em Goiânia-GO, a Regional também perde sua força e o seu mentor.

Em 1º de Abril de 1966, Mestre Pastinha se apresentou junto com outros mestres e alunos na África, no I Festival Internacional de Arte Negra em Dakar, Senegal. Na década de 70 ocorre a expansão da Capoeira para a Europa e E.U.A., mas só em 1989 o angoleiro Contramestre Rosalvo migra para a Europa, fundando em 1997 a primeira academia européia de Capoeira Angola em Berlim, Alemanha.

Em 1972, a Capoeira é homologada pelo Ministério de Educação e Cultura (MEC) como esporte e, em 1974, nasce a Federação Paulista de Capoeira. Em 1992, forma-se a Confederação Brasileira de Capoeira e, finalmente, em 1993, a Associação Brasileira de Capoeira Angola (ABCA). Assim, após milênios de ancestralidade lúdica e poucos séculos de agressividade para a luta, a Capoeira, que desenvolveu variações nas décadas de 20 a 50, com o nascimento da Regional e a sobrevivência da Angola, finalmente se descriminaliza. 

 Consequentemente, se elitiza. Nas décadas de 60 a 90, a fusão e a mutação das capoeiras fazem surgir a ‘Contemporânea’, e, após breve enfraquecimento, renascem a Angola e a Regional. Entramos no século XXI com um lado da Capoeira ligado à marginalidade cultural e econômica, sendo a Roda de Capoeira um aprendizado de desobediência civil para a vida (detalhes no livro).

Por outro lado, num outro estilo, está cooptada, servindo ao sistema estático da estrutura sócio-econômica que mantém as classes, as explorações e a escravidão (que chamamos hoje de globalização ou neo-liberalismo), divertindo ou competindo nas lutas de vale-tudo, ou ainda nas universidades e espaços militares, servindo ao hierarquismo e ao comodismo.

Lembro aqui as palavras de Mestre Lua ‘Rasta’ da Bahia, “… o capoeirista precisa se respeitar…os mais jovens procurarem se interar do que é capoeira, do que é liberdade, do que é militarismo; e a capoeira é anti-militar, a capoeira não tem nada a ver com militarismo…”.

Uma prática…

Quando comecei a prática da capoeira em 1990, em Curitiba, as academias diziam fazer Angola e Regional.  Passei pela Muzenza do Mestre Burguês e, depois, pelo Centro Paranaense de Capoeira do Mestre Sergipe. Somente no final de 1991, vendo uma apresentação do GCAP no Rio de Janeiro, experimentei uma ‘rasteira’. Como é que depois de dois anos aprendendo Angola, descobri a Angola ?

Quando desejei aprender somente Angola no Paraná, os capoeiristas riam e diziam ser a Capoeira Angola coisa de mulher, num sentido pejorativo e obviamente machista. No Rio, Mestre Mano comenta que antigamente (antes de 1980) os regionais diziam pisar na cabeça dos angoleiros nas rodas.

Na Capoeira “Contemporânea” há um estereótipo da Angola dos angoleiros: muito lenta e no chão, sem a presença do ritual. Mestre Moraes e o GCAP resgataram a Angola com seu conteúdo de luta e com uma capacidade técnica de enfrentamento. O angoleiro podendo jogar Angola e enfrentar a “Contemporânea” com igualdade, de baixo para cima, na fuga e no contra-ataque, com negativas frente às positivas.

Na década de 60, a inexperiência em Capoeira (início do Senzala), a necessidade de sobrevivência, o apoio entre capoeiristas de estilos diferentes (Cordão de Ouro e Senzala), o afastamento dos centros tradicionais (BA e RJ) e o desejo de criação de estilos novos fazem a Capoeira sofrer novas transformações. Em 1971, procurando resgatar alguns aspectos mais tradicionais, Mestre Almir das Areias, dissidente do Cordão de Ouro, cria a Capitães da Areia, que junto com a Cativeiro, questionam a Federação e sua proposta.

Grupos importantes e vários outros mestres não cito, pois aqui procuro priorizar apenas os mais próximos da pesquisa Soma-Iê versus Capoeira Angola. Em 1976, Roberto Freire, intelectual que havia entrevistado Mestre Pastinha em 1966 para a revista REALIDADE, começa a fazer Capoeira com Mestre Almir (que hoje chama se Anand) e a estudá-la cientificamente em paralelo ao desenvolvimento da Somaterapia.

Aqui entra um parêntese para a importância do GCAP, o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, formado na época por Mestre Moraes. Fundado em 1980 no Rio e transferido em 1982 para a Bahia, teve uma importância indiscutível para a retomada da Capoeira Angola. Deixou mestres no Rio de Janeiro e formou Mestre Cobrinha Mansa na Bahia.

Valorizando os mestres antigos, produzindo pesquisas, trouxe a energia tradicional da Roda de Capoeira a uma nova posição: ritual, luta e movimento. No início da década 80, com a Regional completando 50 anos e a Angola, 400, o contexto se modificou totalmente. A Regional era predominante, mas se afastara dos preceitos do seu criador, e os angoleiros, que não concordaram com a inevitável fusão das capoeiras, estavam esquecidos e se afastando da sua prática. Mestre João Pequeno, principal discípulo de Mestre Pastinha, começou a usar cordéis e batizados, influenciado pelas mudanças da Capoeira.

A Capoeira começou a se preservar e se restringir através de shows e espetáculos, que associavam uma Capoeira acrobática com Maculelê (arte recuperada por Mestre Popó, de Santo Amaro), Puxada de Rede, Roda de Samba e rituais de show criados por Mestre Canjiquinha. Foi a forma de sobrevivência da Capoeira.

Mestre João Grande, que migrou para Nova York (EUA) e hoje está recebendo vários prêmios pela preservação da arte negra, tinha abandonado a Capoeira, trabalhando como frentista em Salvador.

Graças à insistência de Mestre Cobrinha e do GCAP, voltou à Capoeira em 1984. Em 1986, o Mestre Nenel (filho de sangue de Mestre Bimba) resolve recuperar a Regional original de seu pai, formando a Filhos de Bimba Escola de Capoeira, denunciando como a ‘Contemporânea’ se afastou da Regional pura.

Em 1992, mudei para Belo Horizonte e entrei no Grupo Iúna de Capoeira Angola, com os professores Primo, João e Wagner, que, hoje, dez anos depois, são considerados Mestres. Devido a motivos pessoais, mensalmente viajava pelo sul e sudeste, além de viagens de pesquisa para o nordeste do Brasil, podendo perceber na prática (em rodas e treinos) as várias Capoeiras existentes na década de 90.

Fiz contato com vários capoeiristas, como, por exemplo, Nino Faísca de Olinda-PE, que foi o capoeirista que formou o primeiro grupo somente de Angola em Curitiba, e hoje se encontra na Alemanha como professor da Associação Angola Dobrada de Capoeira Angola, coordenada por Mestre Rogério (que formou o Iúna).

Um texto de Alejandro Frigerio publicado em 1989, “Capoeira: de arte negra a esporte branco”, foi uma referência para quem se iniciasse nas diferenças das capoeiras. Vendo hoje as referências de Frigerio, percebo que sua análise não foi entre Angola e Regional, mas sim entre Angola e “Contemporânea”.

Frigerio não encontrou a Regional pura, e, ainda hoje, essa dicotomia acontece. Quem faz Capoeira, na maior parte dos grupos está aprendendo a Capoeira “Contemporânea”. Aprende a ‘angola-e-regional’. A roda começa com um ritmo lento, a ‘angola’ e logo depois, entra num ritmo mais rápido, a ‘regional’. Frigério comenta essa diferença da ‘regional’ e da ‘atual’ em entrevistas relatadas.

Para um pesquisador que, no decorrer de 1983 a 1987, pesquisou somente oito meses, sua categorização teve pontos interessantes. Concordo com muito de sua abordagem, mas discordo da “musica lenta” ser uma característica intrínseca da Angola.

Porém entendo que ele fez um grande trabalho, mesmo que o seu universo de pesquisa tenha sido somente dois grupos de Capoeira Angola. A Angola, para mim, comporta uma possibilidade variada de ritmos, do lento ao rápido, o que nem sempre vai definir a movimentação dos jogadores. A música na Capoeira não é só um fundo que define o ritmo, ela faz parte do próprio diálogo do jogo, e o jogador pode ‘quebrar as regras’ por desconhecimento ou ousadia.

Junto com o processo de crescimento e “modernização” da Capoeira, quando ela começou a migrar para todo o Brasil e para outros países, a “Contemporânea” se ampliou de forma geométrica, ao mesmo tempo a Angola minguava junto com a Regional original. Na década de 60, ambas se enfraquecem para quase morrerem na década de 70.

Na década de 80 se dá o renascimento da Angola através do GCAP e o renascimento da Regional com os Filhos de Bimba e, na de 90, a definição dos estilos. Conflitos entre grupos e mestres fazem os conceitos de mestria (títulos) e os conceitos dos estilos serem relativizados. Cada grupo se define do seu jeito e a confusão semântica faz parte das capoeiras nessa virada de milênio.  

 “Mestre Pastinha morreu com 92 anos e dizia estar aprendendo a Angola. Como é possível alguém saber os dois estilos?” Esta questão representa a filosofia que procura definir limites para os estilos. A história nos mostrou como foi possível essa fusão, mas o movimento da Capoeira se opera internamente de forma a recuperar conceitos numa prática viva que é o ritual das rodas.

A Regional segue os passos da Angola e ambas conseguem reviver e recuperar sua unidade, deixando para a “Contemporânea” escrever sua história. A Angola se volta para sua essência como movimento de baixo, provocando uma mudança de posição que permanentemente questiona as outras capoeiras. Também questionando permanentemente a si própria para estar em movimento. …considerações finais e iniciais.

Em 1993 a pesquisa da Soma deu seus primeiros frutos.

Os somaterapeutas ligados a Roberto Freire se aprofundam na Capoeira Angola montando um espaço destinado a Angola de Mestre Pastinha e criando um dos primeiros espaços dedicados somente a esta arte (inclusive, tendo conflitos com um capoeirista na sua inauguração) em São Paulo: o Tesão – a casa da Soma, em Perdizes. Enquanto isso, Mestre Almir das Areias cria seu projeto Soma-Capoeira, procurando juntar Angola, Regional e outros estilos num só, o que nada tem a ver com a Somaterapia, ou a proposta da Soma, que é exclusivamente viver a Angola.

Outro ponto de confusão é a questão libertária, que é mal vista por muitos devido à tentativa política da ‘esquerda’ e da ‘direita’ em confundi-la com bagunça ou desordem. Através da denúncia do autoritarismo, o Anarquismo, como a Angola, produz a permanente crítica às relações que produzem o movimento social.

Hoje, o próprio Movimento Anarquista está contaminado de autoritarismo, e a Soma-Iê procura lutar contra isso vivendo a Autogestão (ou melhor, em permanente busca por ela). A luta pela Autogestão é a luta cotidiana contra a vivência do autoritarismo. Nos estudos de grupos de Capoeira nos aproximamos da cultura Bantú na descentralização do poder e no respeito à dignidade humana (não confundir com cidadania – sempre conceitos em conflito…).

O que está difícil na sociedade é a vivência da Autogestão e, principalmente, as associações em macro escala, possíveis na teoria de “Do Princípio Federativo”, de Pierre-Joseph Proudhon, mas raramente vividos na prática. Vivência que acontece cotidianamente nos diálogos da roda de Capoeira Angola.

Os aspectos técnicos retomados podem variar, mas como exemplificação da terminologia vamos analisar a bateria das rodas. Mestre Pastinha mostrou que na bateria o berimbau é indispensável. Com a retomada da Angola pelo GCAP, Mestre Moraes a definiu com três berimbaus, dois pandeiros, atabaque, agogô e reco-reco.

E outros grupos como de M. João Pequeno e m. Curió já usava bateria similar na época. Muitos grupos criaram essa bateria como ‘lei’ sem perceber que não é só isso que definirá o estilo. A Regional de Mestre Bimba, que hoje atua com um berimbau e dois pandeiros de couro, segundo Mestre Boca Rica, antes também contava com um reco-reco.

A entrada dos instrumentos é plural. O berimbau-de-barriga entrou na Capoeira entre os séculos XIX e XX. Na vida social, o berimbau era usado por vendedores ambulantes para chamar a atenção. Antes, no lugar do arame, era usado o cipó-de-imbé e havia também o berimbau-de-boca. O nome ‘berimbau’ é de origem portuguesa e espanhola e foi transferido para o arco-musical africano, que é um dos instrumentos musicais mais antigos da humanidade.

A entrada do atabaque se deu provavelmente no século XX, na institucionalização da Capoeira. Apesar de constar na clássica ilustração de Johann Moritz Rugendas (de 1830, considerado o mais antigo desenho do jogo de capoeira), o atabaque não manteve uma continuidade histórica.

Inclusive, há versões de que quem o introduziu recentemente foi Mestre Canjiquinha. Se no Rio de Janeiro, na capital do Império, entrou a navalha, “a Bahia muito contribuiu, na parte musical, introduzindo o pandeiro, o caxixi e o reco-reco, em substituição às palmas; e o berimbau de barriga com corda de aço, com voz mais sonora e muito mais recursos que o de boca” .

Só para apresentar esta exemplificação da bateria, vi na década de 90 grupos mudando e variando. Alguns, que usavam um berimbau, passaram a usar três berimbaus. No aspecto aparente e superficial, passaram da Regional para a Angola, mas no aspecto técnico da música, o tipo de toque, a afinação de cada berimbau e a sua função na roda, eles simplificaram e enfraqueceram a proposta da Angola, aumentando a descaracterização e a confusão.

Assim procuro separar os aspectos OBJETIVOS, como cores de uniforme, bateria, músicas, etc, dos aspectos SUBJETIVOS, as intenções e relações criadas que se buscam na brincadeira de Angola. Sem uma entrega visceral (como abandonar a tentativa de ter vários estilos hoje) não se conhecerá todo esse mistério afro-brasileiro.

Podemos ultrapassar a ‘objetividade-sem-parênteses’ das análises objetivas e trabalhar a ‘objetividade-entre-parênteses’ na Capoeira.

A Soma-Iê quer movimentar os conceitos, colocando todos como ‘observadores’: ação direta produzindo trocas dentro da roda e fora dela. Cada um é quem vai optar entre ilusão e percepção. A arte da Angola vai contra a alienação dominante. Hoje, mesmo grupos de Angola que não mantiverem um contato com outros mestres angoleiros podem no decorrer do tempo mudar de estilo. Pois a Angola, viva e em movimento, é formada pelo conjunto dos praticantes e seus intercâmbios.

Como fiz dois anos de ‘Contemporânea’ e dez anos de Angola pura não tenho competência nenhuma para falar da Regional. Possuo somente algum conhecimento teórico. Na Angola só terei alguma competência para nela começar a me expressar com mais de quarenta anos de Capoeira. Não tenho pressa, pois ainda faltam trinta anos para isso.

Sempre que se tenta explicar as diferenças de estilos da Capoeira, o aspecto semântico confunde muito. Pois só é possível entender a Capoeira através da experiência pessoal e própria. Este texto é parte de uma pesquisa na qual pretendo mostrar os efeitos poderosos que a Angola possui para a vida humana enquanto terapia, liberação da criatividade, liberação energética, etc…

Uma grande riqueza desse universo é sua diversidade. Neste aspecto, a Capoeira imita a natureza em sua biodiversidade. Estamos a cada dia descobrindo novidades, “movimento é vida”.

O que pretendo com este texto é clarear um pouco a nomeação dos estilos, mas com certeza dentro de cada estilo cada grupo possui suas diferenças. O que vejo na Angola é como cada um consegue descobrir o seu jeito de se expressar, uma verdadeira unidade na diversidade. Muito mais importante que os nomes é o que se pratica, e, nesse aspecto, a Capoeira tem uma unidade. Pois posso dentro do meu estilo me adaptar e jogar em rodas de outros estilos.

E é a partir desta prática que pergunto com este texto: Qual é a sua? Cada um está escrevendo a sua história corporalmente e procurando manter as capoeiras.

O que tenho visto são três ambientes e a melhor síntese disso seria a duração de permanência de estilos:

CONTEMPORÂNEA é a capoeira mais difundida. Aqui nesta categoria coloco todas as nomeações que tenham menos de 50 anos de existência. Aqui entra a MAIORIA DE GRUPOS E ACADEMIAS, com a Capoeira sendo chamada de ‘Angola-e-Regional’, e as contemporâneas ‘regional-moderna’, ‘Soma-Capoeira’, Capoeira free-style (para luta Vale-tudo), Hidro-Capoeira, Capoeira misturada com outras lutas (boxe, muay-thai, etc) e ainda as que não querem abandonar seus títulos anteriores. Na década de 90, tentaram e hoje ainda tentam se aproximar da Angola (o que está gerando confusões, pois todos têm o direito de aprender o que quiser, mas nesta categorização, estes angoleiros “contemporâneos” se diferem dos que jogam EXCLUSIVAMENTE a Angola);
REGIONAL pura de Mestre Bimba, que está sendo divulgada e recuperada, principalmente, por Mestre Nenel. Passou por mudanças, tem em torno de 80 anos de existência;
ANGOLA pura, que possui Mestre Pastinha como ícone maior, mas que comporta dentro do mesmo estilo variações práticas e técnicas derivadas de 400 anos de existência e experimentação. Nessa categoria, não se aceitam competições ou campeonatos, pois o melhor da roda não pode ser medido, não existe. Cada um contribui com seu melhor para a roda e isso potencializa a energia coletiva, que retorna para o indivíduo.

A Soma-Iê se encontra dentro desta proposta com os grupos de terapia ligados aos Coletivos Iê’s de SP, BH e Curitiba. Apesar de não ter um mestre nos apadrinhando, buscamos a responsabilidade de não misturar ou deturpar sua essência, permanentemente fazendo oficinas com mestres angoleiros. Uma fonte de referência além do GCAP e suas derivações é a ABCA (Associação Brasileira de Capoeira Angola), que possibilitou a volta de mestres que pararam por mais de 20 anos ou que modificaram seu estilo e agora voltaram à Angola. E inúmeros angoleiros que se espalham pelo Mundo a fora, os já citados e outros como M. Curió,  Mestre Lua de Bobó, M. René, M. Roberval e M. Laércio, e sem falar dos antigos capoeiristas como M. Antônio Diabo de Jequié.

Esta categorização pode ser usada por grupos e rodas, mas é sobre o capoeira, o capoeirista, que procuro definir. Pois se Mestre Bimba foi angoleiro e criou a Regional, qualquer um pode mudar de estilo no decorrer do fluxo de sua vida. Nem é sempre o título conseguido por um mestre angoleiro que definirá seu estilo.

Mestre João Pequeno, maior raiz viva da Angola, formou mestres em Minas Gerais que nesta categorização não são angoleiros. Há também outros mestres antigos que são angoleiros e foram criando alunos e mestres não-angoleiros (Mestres Brasília e Sergipe, e outros inúmeros exemplos). A Capoeira é PRÁTICA e não TEÓRICA. Se mestres tiveram formação angoleira ou regionaleira pura e não a seguem, procuro enquadrar seu estilo em função da sua prática cotidiana, de seu grupo e alunos.

Esta categorização não é entre melhor e pior, simplesmente busco explicitar uma forma de ver a Capoeira que desenvolvi nos últimos anos, na prática, na convivência e na pesquisa. Apesar dos estilos terem treinos e rodas que definem o cotidiano de seus praticantes, qualquer um pode participar de um outro estilo, desde que respeite os rituais locais, o que mantém a possibilidade de chamarmos tudo isso de CAPOEIRA. Acontecem muitos eventos onde se convidam mestres antigos, ora pra valoriza-los, ora para tentar usar seus nomes, são tênues esses limites, e secundários, desde que se respeitem estes mestres.

A individualidade defendida por Mestre Pastinha (“cada um é cada um, ninguém luta como eu”) é fundamental dentro do estilo Angola. No entanto, a infiltração da militarização e da padronização pode ainda descaracterizar a Angola no contexto atual de globalização econômica. Mesmo grupos que foram fundamentais no resgate da Angola, ao insistirem em uma única padronização, podem enfraquecê-la. O ‘Cobra Mansa’ de Mestre Pastinha, Mestre João Pequeno é fundamental hoje, pois além de ser o mais importante capoeirista vivo e em atividade, soube experimentar e trazer de volta elementos ritualísticos da sua Angola.

Poucos podem trazer em seu currículo mais de 71 anos de capoeiragem em quase 85 anos de vida. Desejo críticas e sugestões para ir ‘movimentando’ minhas percepções aqui apresentadas e poder retribuir em novos textos (as correções colocarei no livro), procurando buscar mais ‘sinceridades’ que ‘verdades’. Nas últimas décadas, com a existência de técnicas de vídeo, fotos e arquivos, há capoeiristas tentando inventar (mentir) seu passado. Uma pergunta pode ser um desafio ou um diálogo, na roda e na vida.

Dentro das capoeiras, eu pergunto: Qual é a sua?

Posso definir o outro de fora e cada um pode se definir. Assim poderemos confrontar conceitos. Querer definir o outro pode parecer autoritário, uma forma de me defender (fechar), mas também pode fazer parte do meu direito libertário. O autoritarismo também é móvel e está nas relações e não só em conceitos. Pois os conceitos mostram a prática e esta é modificada cotidianamente, pelas relações do indivíduo com seu meio. Eu sou angoleiro, sim sinhô… e pergunto ao Kamugerê, qual é a sua?

“Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições” 

Manoel de Barros

Rui Takeguma Somaterapeuta criador da Soma-Iê, anarquista, fotógrafo e professor do Iê – Grupo Anarquista de Capoeira Angola de SP, participante da FACA (Federação Anarquista de Capoeira Angola) 

Fonte: www.ime.usp.br